A Otan aos 70 anos

Ironicamente, como se a guerra fria se repetisse como farsa, as maiores fontes de instabilidade na aliança hoje são os presidentes da Rússia e dos Estados Unidos

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2019 | 03h00

Em reportagem dedicada à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que completa hoje 70 anos, a revista The Economist pontuava que a aliança “merece um retumbante ‘feliz aniversário’. Manteve a paz por 40 anos de guerra fria, protegeu a Europa ocidental do comunismo, ajudou a estabilizar a Europa central após o colapso da União Soviética e possibilitou uma prosperidade sem precedentes”. O sucesso foi tão grande que ela integrou em si os sete países satélites da URSS na sua nêmesis, o Pacto de Varsóvia. Paradoxalmente, esse triunfo leva muitos críticos a questionar sua pertinência num mundo multipolarizado. Mas, desde a queda do Muro de Berlim, ela adotou uma estratégia de defesa de 360 graus, atuando para pacificar os Balcãs e em ações contra o jihadismo no Afeganistão, Iraque e Líbia e contra a pirataria na Península Somali.

Ironicamente, como se a guerra fria se repetisse como farsa, as maiores fontes de instabilidade na aliança hoje são os presidentes da Rússia e dos Estados Unidos. Com a ascensão do ex-coronel da KGB Vladimir Putin, a Rússia passou a exercitar seus músculos no Báltico, explorando, nas palavras do diplomata britânico Peter Ricketts, “a área cinzenta entre intimidação e subversão e conflito aberto” com táticas híbridas de desinformação e agressão de tropas mercenárias. Deste lado do Atlântico, Donald Trump já declarou que a Otan é “obsoleta” e alegou que seus aliados estão “se aproveitando” dos EUA, chantageando-os com a retirada caso não investissem mais em defesa. De fato, este é de longe o ponto mais crítico da aliança.

Os membros europeus da Otan têm um PIB dez vezes maior que o da Rússia e eles gastam quase quatro vezes mais com defesa. Apesar disso, a contribuição para o orçamento da Otan dos países da União Europeia – sem contar a Grã-Bretanha, à beira de deixá-la – é de meros 20%. Se um tweet de Trump anunciasse a retirada dos EUA, o panorama seria sombrio. Comparada à autocracia russa, a união consensual entre as dezenas de membros da Otan já é suficientemente atravancada. Numa coalizão exclusivamente europeia, sem a mão pesada dos EUA, seria ainda mais. Segundo Jonathan Eyal, do Royal United Services Institute, seria um “frenesi de atividade, uma cacofonia de cúpulas”, que, na opinião do funcionário da Otan Michael Rühle, “iria arrebatar os europeus política, financeira e militarmente.”

Malgrado esses problemas, a Otan parece estar mais forte do que nunca. Dos 12 países iniciais, hoje conta com 29, que cobrem mais de 930 milhões de pessoas e respondem por mais de 70% dos gastos mundiais com defesa. A Otan tem o apoio majoritário do Congresso e da população dos EUA, e Trump, com sua ambivalência característica, já declarou que a aliança “não é mais obsoleta” e que os EUA estão “com a Otan 100%”. Mais importante, em sua gestão os EUA aumentaram sua presença militar na Europa em 40%, em resposta à anexação da Crimeia pela Rússia. Como parte dessa mesma iniciativa, chamada de Dissuasão Europeia, os europeus já investiram US$ 87 bilhões a mais, e pactuaram que até 2024 atingirão a meta de investir 2% de seu PIB em defesa.

Assim, a aliança parece estar respondendo bem ao desafio lançado por seu primeiro secretário-geral, Lord Ismay, de manter “os russos fora, os americanos dentro e os alemães abaixo”, com a diferença de que, agora, trata-se de manter os alemães acima, sobretudo nos aportes de recursos. Quanto à Rússia, apesar do oportunismo de Putin bombeado por seu aparato nuclear, é um poderio que tende a diminuir e se regionalizar.

As novidades no horizonte são a revolução digital e a emergência da China. A Otan já reconheceu que, além de mar, terra e ar, o ciberespaço é um quarto domínio de guerra, e Putin mostrou que não terá escrúpulos de estender suas aventuras beligerantes a ele. Quanto à China, embora não seja uma ameaça militar eminente, é sempre um regime autocrático, em vias de se tornar a maior potência econômica mundial, com manifestas ambições no campo da inteligência artificial, big data e computação quântica, todas com vastos usos militares.

A Otan certamente tem trabalho à frente na defesa da ordem liberal. Mas, como disse seu atual secretário-geral, Jens Stoltenberg, ela é “a mais forte e mais bem-sucedida aliança da história, porque fomos capazes de mudar”. 

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