A pandemia continua acelerada

Apesar das advertências, o mundo se provou despreparado para o novo vírus

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2020 | 03h00

Há seis meses, no dia 30 de dezembro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recebia o comunicado de um surto de pneumonia de causa desconhecida em Wuhan, na China. Hoje são mais de 10 milhões de casos de covid-19 e 500 mil mortes. “Todos queremos que isso acabe. Todos queremos tocar nossas vidas”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom. “Mas a dura realidade é: isso não está sequer perto de terminar. Embora muitos países tenham feito algum progresso, globalmente a pandemia está na verdade acelerando.” E complementou: “A questão crítica que todos os países enfrentarão nos próximos meses é como viver com este vírus. Este é o novo normal”.

Adhanom enumerou cinco prioridades nas quais as nações precisam focar. Primeiro, empoderar as comunidades. Há coisas que todo indivíduo pode fazer, como distanciamento físico, higiene manual, cobrir tosses, usar máscaras e só compartilhar informações confiáveis. A saúde está nas mãos de cada um.

Em segundo lugar, reprimir a transmissão, aprimorando o monitoramento. “A intervenção mais importante para quebrar as cadeias de transmissão” – o rastreamento e a quarentena dos contatos – não depende necessariamente de alta tecnologia e pode ser realizada por um amplo espectro de profissionais, inclusive sem formação em saúde.

Terceiro, salvar vidas, por meio de cuidados clínicos como oxigenação e dexametasona para pessoas severamente adoentadas. É preciso especial atenção aos grupos de risco, sobretudo os idosos.

Quarto, acelerar a pesquisa. Por intermédio do programa Solidariedade, a OMS está buscando descobrir as drogas mais eficazes. Ela estima que US$ 31 bilhões serão necessários para acelerar o desenvolvimento, alocação equitativa e entrega de vacinas, diagnósticos e terapias até o fim do próximo ano.

Tudo isso depende da quinta prioridade: liderança política. “Unidade nacional e solidariedade global são essenciais para implementar uma estratégia abrangente.” A admoestação vale especialmente para as duas potências econômicas, EUA e China, que nestes seis meses só inflamaram sua “guerra fria”, mas vem à tona no momento em que a América Latina se torna o epicentro da crise.

As taxas de infecções e mortes per capita na região estão se aproximando daquelas da Europa e dos EUA, com o número de casos representando 25% do total mundial. São mais de 100 mil vidas perdidas. A previsão do FMI é de uma contração de 9,4% na economia latino-americana em 2020. A escalada é especialmente grave, dadas as altas taxas de informalidade e a preparação precária para lidar com novos surtos.

O Brasil tem motivos para se orgulhar de seu Sistema Único de Saúde, mas a pandemia expôs brutalmente suas desigualdades regionais. Entre as várias respostas insuficientes às prioridades apontadas pela OMS, talvez a pior seja na liderança das autoridades públicas. A tempestade colheu uma economia que se recuperava da pior recessão de sua história, mas enquanto milhões perdem seus empregos e rendas, a Suprema Corte vetou qualquer possibilidade de sacrifício nos proventos e benefícios do funcionalismo público, e o descaso do presidente da República é mundialmente notório. Apesar de respostas como os cortes na taxa de juros e pacotes de liquidez, as transferências de dinheiro para grupos vulneráveis apresentaram várias falhas que precisam ser sanadas. Ademais, “a retomada da agenda de reformas estruturais e fiscais é a chave para preservar a sustentabilidade fiscal e impulsionar o crescimento potencial e a confiança do investidor”, lembra o FMI.

Apesar das advertências, o mundo se provou despreparado para o novo vírus. Ainda sob o risco de uma “segunda onda”, a comunidade global precisará robustecer seus sistemas de prevenção contra ameaças planetárias. “Este é um tempo para renovar nosso compromisso com a cobertura de saúde universal como pedra angular do desenvolvimento social e econômico – e para construir o mundo mais seguro, justo, verde e inclusivo que queremos”, concluiu Adhanom. “Nós já perdemos muito – mas não podemos perder a esperança.”

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