A pandemia de inflação

Expectativa de juros mais altos aumenta insegurança, e alta de preços inferniza a vida de consumidores e empresários

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2022 | 03h00

Uma nova pandemia, com preços em disparada e mais desarranjos nos mercados, assola o mundo capitalista e espalha o temor de entraves maiores ao consumo, à produção e ao emprego. A expectativa de um rápido aumento de juros nos Estados Unidos assusta os investidores e afeta os negócios em bolsas. A inflação pode ser uma doença devastadora, mas o remédio mais comum, o aperto monetário, também amedronta e pode doer muito. O Brasil, um dos países mais afetados pelo desajuste dos preços, já enfrenta o desconforto de uma terapia severa, mas sem perspectiva, por enquanto, de uma firme recuperação.

A inflação anual chegou a 7,7% em fevereiro, no conjunto de 39 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Foi a taxa mais alta desde dezembro de 1990. Essa taxa foi em grande parte puxada pela alta de preços na Turquia, de 54,4%. Mas o conjunto tem sido afetado também pela inflação nos Estados Unidos, onde a alta anual dos preços ao consumidor bateu em 7,9%, a maior variação desde janeiro de 1982. Alimentos e energia são os itens mais vistosos no painel inflacionário, mas, descontados esses componentes, as taxas de inflação continuam elevadas: 6,4% nos Estados Unidos, 4,6% no Reino Unido, 4,4% nos sete maiores países capitalistas e 5,5% na OCDE.

Não há mistério nesses números. A onda inflacionária decorre, em grande parte, de dois desastres. O primeiro, a pandemia de covid-19, prejudicou a oferta de matérias-primas e de insumos de origem industrial, como os semicondutores, e desarranjou os transportes. O segundo, a invasão da Ucrânia, afetou os mercados de petróleo, gás, fertilizantes e de trigo e milho. Além disso, o mundo sofre os efeitos de uma enorme expansão monetária no mundo rico, especialmente nos Estados Unidos. Essa inundação de dinheiro, com forte efeito inflacionário, começou como reação à crise financeira de 2008 e cresceu a partir da retração econômica deflagrada pela pandemia de covid-19.

O Brasil enfrenta os efeitos de todos esses fatores, além das consequências dos problemas climáticos internos e, em qualquer circunstância, da insegurança econômica e da instabilidade cambial causadas pelos arroubos e arranjos do presidente Jair Bolsonaro. Ativos baratos para os estrangeiros e juros muito altos têm atraído dinheiro de fora. Por isso o dólar se depreciou em relação ao real nos últimos meses, mas o câmbio continuará sujeito, nos próximos tempos, ao comportamento do presidente Bolsonaro, empenhado na busca da reeleição e vulnerável aos interesses do Centrão.

Os juros básicos devem subir de 11,75% para 12,75% na reunião de maio do Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central, e deverão continuar muito altos por longo tempo. Se os juros nos Estados Unidos subirem mais velozmente, como têm sinalizado autoridades monetárias americanas, as possibilidades de afrouxamento no Brasil ficarão mais limitadas. O País continuará afetado, por um bom período, tanto pela pandemia da inflação quanto pela terapia desconfortável.

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