A pandemia e a queda de aprendizagem

Problemas na educação vão comprometer o futuro das novas gerações

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 03h00

O fechamento das escolas em 2020, por causa da pandemia, custará caro para as novas gerações. Como muitos adolescentes e jovens não se adaptaram ao ensino remoto, o déficit de aprendizagem que tiveram os levará a perder cerca de R$ 700 bilhões em renda, quando se tornarem adultos. E se, em 2021, não houver um retorno ao menos para o ensino híbrido no segundo semestre, a perda poderá chegar a R$ 1,5 trilhão. 

A estimativa é do Instituto Unibanco que, em parceria com o Insper, analisou o impacto econômico da substituição das aulas presenciais pelas aulas virtuais na formação dos estudantes da rede pública de ensino médio. Coordenada pelo economista Ricardo Paes de Barros, a pesquisa mostrou que, além de terem aprendido menos em 2020, esses estudantes entraram em 2021 com uma perda de 9 pontos em português e 10 pontos em matemática na escala do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). 

O Saeb é uma prova aplicada pelo Ministério da Educação (MEC) com o objetivo de avaliar a qualidade do ensino. Sua escala indica o nível de proficiência desenvolvido em determinadas competências e habilidades. Ao longo do ensino médio, um estudante aprende o equivalente a 20 pontos em português e 15 em matemática. No caso dos alunos da segunda série desse ciclo, por exemplo, a perda de pontos revelou que, no ano passado, eles absorveram apenas 25% do que era esperado. Assim, entraram despreparados na terceira série, em 2021, correndo o risco de chegar em dezembro com uma perda de 20 pontos em português e matemática. 

Se isso ocorrer, os três anos em que esses estudantes frequentaram o ensino médio terão sido perdidos. Isto porque eles terminarão esse ciclo, o último antes do ensino superior, com um volume de informações pouco acima do que já sabiam quando concluíram o ensino fundamental. Além disso, como a aprendizagem é um processo sequencial, muitos conhecimentos que eles haviam aprendido no ensino fundamental foram esquecidos em 2021, por não terem sido exercitados pelo sistema de aulas virtuais. 

O futuro dessas gerações é sombrio, uma vez que, diante da velocidade das transformações tecnológicas, que estão reconfigurando o mundo do trabalho, só terão vez os jovens com formação especializada e capacidade técnica. Quem não atender a esses requisitos terá remuneração baixa, e, se encontrar algum emprego, certamente será na economia informal, gerando assim menos benefícios para a sociedade. 

Por isso, se o MEC não tomar urgentemente medidas de curto, médio e longo prazos, os estudantes com déficit de aprendizagem por causa da pandemia tenderão a “ser menos produtivos e o Brasil vai produzir menos durante décadas. Isso afeta o estoque de capital humano e a capacidade criativa do País”, diz Paes de Barros. “Vamos pagar um preço alto por uma gestão profundamente inadequada tanto sanitária como educacional. Ela aconteceu quando o Brasil estava entrando na quarta revolução industrial. Significa assim perda de uma chance de desenvolvimento”, afirma a diretora do Centro de Políticas Educacionais da FGV, Cláudia Costin.

Apesar da advertência, os responsáveis pelo estudo “não escondem seu pessimismo. Após a eclosão da pandemia, enquanto os Estados e municípios criaram plataformas online, ofereceram chips aos alunos e distribuíram materiais impressos para suprir a falta das aulas presenciais, o MEC se omitiu, negando-se a articular as ações das autoridades educacionais dos Estados e municípios. Além disso, afirmam os responsáveis pela pesquisa, como o País não tem experiência no desenvolvimento de programas de aceleração de aprendizagem no ensino médio, há a necessidade de colaboração de todas as instâncias governamentais para formular projetos que reduzam os problemas causados pelo fechamento das escolas durante a pandemia. Mas como “fazer bem feito algo que nunca fizemos”, ainda mais quando o MEC não faz o que dele se espera? – indagam. Não por acaso, o superintendente do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques, classificou as constatações da pesquisa como “catastróficas e trágicas”. 

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