A pandemia na cidade de São Paulo

Na mesma cidade, a covid-19 gera efeitos completamente diferentes

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2020 | 03h00

A Prefeitura de São Paulo realizou um inquérito sorológico sobre o novo coronavírus que pode ser de grande utilidade, tanto para avaliar de forma mais precisa a atual situação da pandemia na capital como para entender os efeitos dos diversos fatores sociais e urbanísticos na incidência e letalidade da doença. Se é certo que o enfrentamento da pandemia exige medidas imediatas, a covid-19 deve ser também ocasião para avaliar, sob uma perspectiva mais ampla, as implicações de médio e longo prazos das políticas públicas.

É preciso rever o planejamento urbano, sem tolerar práticas nocivas, que afetam especialmente a população mais carente.

Segundo o estudo, 1,16 milhão de pessoas na cidade de São Paulo (9,5% da população) tiveram contato com o novo coronavírus.

Oficialmente, a cidade tinha 118 mil casos confirmados de infecção. Trata-se de uma taxa maior que a de outros países que realizaram inquéritos parecidos, como França e Espanha. O estudo em São Paulo foi feito com 5.446 pessoas, escolhidas por sorteio, e contemplou todas as regiões na cidade. Na zona leste, por exemplo, a doença chegou a 12,5% dos moradores; e na zona sul, a 7,5% da população.

Com o novo número de pessoas infectadas, a taxa de mortalidade da covid-19 na cidade alterou-se substancialmente, ficando em torno de 0,5 morte para cada mil infectados. “Sem a taxa de prevalência, a taxa de letalidade na cidade de São Paulo era de 26 casos para mil infectados. O inquérito sorológico nos apresenta o real cenário da letalidade. A taxa de letalidade é de 0,5%, cinco pessoas a cada mil infectados”, disse o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido.

A Prefeitura também apresentou um mapa sobre a mortalidade da covid-19, especificando a letalidade da doença em cada 1 dos 96 distritos da cidade. Nos bairros mais pobres e com menos infraestrutura, a covid-19 tem efeitos muito mais drásticos. São 8 os bairros com taxa de letalidade acima de 120 mortes para cada 100 mil habitantes: Iguatemi, Guaianases, Lajeado e Jardim Helena (bairros da fronteira leste do município), Brasilândia e Cachoeirinha (zona norte) e Sé e Brás (região central). Este último bairro, que é o líder de casos, tem taxa de letalidade acima de 140 para 100 mil habitantes.

Ao mesmo tempo, há 5 bairros com taxa inferior a 40 mortes para cada 100 mil habitantes: Perdizes e Pinheiros (zona oeste), Moema e Jardim Paulista (zona sul), e Bela Vista (região central). Como se vê, na mesma cidade e, muitas vezes, na mesma região, a covid-19 gera efeitos completamente diferentes.

Segundo o professor da USP Paulo Lotuf, incidência e letalidade são dois fatores que contribuem para a mortalidade da doença. A incidência da doença é muito decorrente das questões ambientais, por exemplo, se a pessoa consegue fazer de fato o isolamento social. A letalidade relaciona-se com a qualidade do atendimento médico recebido por quem procura ajuda. “A pessoa que está numa região mais pobre com certeza vai ter uma incidência maior e uma dificuldade maior em ter atendimento médico”, disse Lotuf.

A relação entre condições sociais e mortalidade do novo coronavírus tem sido constatada por várias pesquisas. No início do mês de junho, o Observatório da Covid-19 BR, que reúne mais de 60 pesquisadores, divulgou documento que analisava dados da doença na cidade de São Paulo. Segundo o estudo, “na população de pessoas com 60 anos ou mais, as desigualdades são bem evidentes. Pretos (risco de óbito 57% maior) e pardos (risco de óbito 37% maior) apresentam maior mortalidade por covid-19 do que os brancos (...)”. Constatou-se também maior mortalidade por covid-19 em bairros com maior número de moradores por domicílio.

Diante de tais dados, urge revisar as políticas públicas de urbanismo e moradia. O poder público não pode ser omisso, por exemplo, em relação às favelas, nas quais faltam condições mínimas de infraestrutura. São vidas humanas envolvidas – e não há discurso político ou ideológico capaz de esconder os danos causados em tantas famílias por essa contemporização de situações intoleráveis. A covid-19 exige ação e também reflexão.

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