A política como calcanhar de aquiles

Governo disfuncional, Congresso fragmentado, orçamento engessado e polarização populista dificultam controle da dívida e da inflação para aproveitar novo ciclo das commodities

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2022 | 03h00

Para o bem ou para o mal, num futuro próximo o destino da América Latina está atrelado à exportação de commodities. Historicamente, os ciclos de demanda global por bens primários foram chave para o crescimento da região. Mas a alta dependência das commodities também a deixa mais vulnerável às oscilações de preços.

O superciclo iniciado em 2004 trouxe uma era de abundância, marcada pelo declínio da pobreza e melhoras nos indicadores de saúde. No Brasil, durante a gestão petista, foram distribuídos subsídios e créditos que aumentaram o consumo da classe média. Mas perdeu-se a oportunidade de promover reformas modernizantes do Estado e investir em instrumentos elementares para o crescimento sustentável, como educação, infraestrutura e diversificação econômica.

O fim do ciclo, em 2014, combinado ao descalabro fiscal da gestão Dilma Rousseff, forçou a concertação de alguns ajustes, como reformas e consolidações fiscais. Quando os frutos mal começavam a ser colhidos, veio o impacto da guerra comercial entre China e EUA, seguida pela pandemia.

Agora, a guerra na Ucrânia impulsionou uma alta nos preços das commodities que já começara em 2021. Será essa uma nova oportunidade de crescimento? A questão foi abordada em um estudo da Economist Intelligence Unit (EIU).

As projeções indicam que a alta deve perdurar, ainda que não com a mesma intensidade, por mais alguns anos. Mas as condições são bem diferentes do último ciclo. Antes de tudo, a economia global está mais fragilizada. No início dos anos 2000, a política monetária das grandes economias estava mais flexível. Hoje, a inflação generalizada, especialmente alta nos EUA, aponta para um período de restrições. A economia da China, o grande motor do último boom, patina em meio às pressões da política de “covid zero”.

Para avaliar os países latino-americanos mais bem preparados para enfrentar esses desafios, a EIU modelou uma avaliação baseada em sete critérios: inflação, dívida pública, pagamentos de juros pelo setor público na proporção da receita, contas correntes, dependência das commodities e riscos políticos e regulatórios.

O posicionamento do Brasil é medíocre, na 13.ª colocação. Numa escala de gravidade de 1 a 5, a melhor nota, 2, é na conta corrente do balanço de pagamentos.

A alta nas commodities trará uma lufada de lucros e algum alívio fiscal, com uma janela de oportunidades para mais investimentos, empregos e consumo. Mas essas oportunidades são contrapesadas pelas pressões inflacionárias particularmente altas, que exigem políticas monetárias agressivas.

Como disse ao Valor a diretora da EIU para a região, Fiona Mackie, o nível elevado da dívida pública impõe ao governo duas opções. Uma seria manter as metas fiscais, mas isso arriscaria uma queda no crescimento econômico, aumentando a agitação pública em ano eleitoral. Por outro lado, ele pode avançar com medidas de apoio fiscal à renda dos consumidores corroída pela inflação. Mas isso abalaria ainda mais a credibilidade fiscal junto ao mercado.

O dilema expõe aquele que, segundo Mackie, é o calcanhar de aquiles do Brasil: a política.

Se a economia nacional se encontra nessa situação, é porque o governo, antes de promover as reformas que teriam reduzido o “custo Brasil” e garantido as condições para um crescimento sustentável, se entregou de braços abertos aos tráficos fisiológicos da “velha política”. Um Congresso fragmentado, um orçamento engessado e loteado e um ambiente político polarizado deixam ao País parcos recursos para controlar a inflação e a dívida.

As eleições são uma chance de injetar sangue novo nas políticas econômicas. Contudo, as frustrações com a desigualdade ou a corrupção, exacerbadas pela pandemia, abastecem, paradoxalmente, as mesmas aventuras populistas que tanto agravaram essas mazelas e perturbam o ambiente de negócios. A menos que as intenções de voto apontadas nas pesquisas sejam revertidas, a probabilidade é que, ao contrário do que aconteceu no último ciclo das commodities, este novo ciclo seja desperdiçado antes mesmo de trazer qualquer proveito.

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