A política e as redes sociais

Desafio da democracia é fazer com que essa incrível reunião de vozes seja de fato diálogo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 03h00

As inovações tecnológicas têm propiciado profundas mudanças sociais, que, por sua vez, têm consequências políticas. As redes sociais, por exemplo, aproximaram os cidadãos das autoridades públicas, num contexto de maior transparência. As novas tecnologias também permitiram um novo patamar de interação entre os cidadãos, com inéditas possibilidades de intercâmbio de ideias, projetos e iniciativas. O mundo ficou menor e isso é muito positivo para a democracia.

Ao mesmo tempo, as redes sociais são palco de fenômenos que preocupam, como a polarização política, a disseminação de fake news e a falta de respeito por quem pensa de forma diferente. Não raro, a liberdade experimentada nas redes sociais não sabe conviver com o pluralismo e a liberdade de pensamento. Para debater esse mundo em transição, o Estado e a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps) realizaram, em Brasília, o seminário “Desafios da Democracia no Brasil: Inovação e Representação num Mundo Hiperconectado”.

Ao tratar das condições para melhorar a representação política, Mônica Sodré, diretora executiva da Raps, falou da necessidade de não impor a todos os políticos o rótulo de corrupto. “O primeiro passo é não criminalizar os políticos. Não são todos iguais, não são todos ruins”, disse Sodré, lembrando que não criminalizar a política no Brasil é fundamental para atrair novos candidatos nas eleições e estimular a participação mais ativa de jovens na política nacional.

Um diagnóstico da política sem generalizações caluniosas é um desafio especialmente importante nos dias de hoje, quando muitos utilizam as redes sociais precisamente para difamar o Legislativo e, de sobra, o Judiciário. Tornou-se corrente tratar o Congresso como desonesto e corrupto, como se tal acusação fosse uma verdade incontestável. Além de não corresponder aos fatos, esse modo de proceder acaba por afastar lideranças jovens e idealistas da política.

Ao falar do acirramento que se observa na população por questões políticas, o cientista político Fernando Guarnieri distinguiu a polarização ideológica do que chamou de polarização afetiva, relacionada à agressividade. “Na polarização afetiva, um grupo não conversa com o outro, quer aniquilá-lo. É isso que o populismo faz, força limites da democracia e da civilidade, com posturas incivilizadas nas redes. (...) Pessoas adotam um discurso do ódio, virulento, porque assim chamam mais a atenção e criam vínculos fortes com seu grupo e, cada vez mais, acentuam uma apreciação negativa por parte do outro grupo. Temos que buscar reduzir essa polarização afetiva, mas não a ideológica, que é boa para a democracia, pois, quando os políticos assumem uma posição, ajudam a distinguir melhor as propostas e seus pontos de vista”, disse Guarnieri.

Eis aqui outro ponto fundamental da política numa sociedade democrática. O embate de ideias e propostas é consequência necessária da liberdade política e do pluralismo. É um equívoco muito empobrecedor – e perigoso – achar que a sociedade ideal deveria se encaminhar para consensos plenos e universais. O embate de ideias e as disputas ideológicas são sintomas de uma democracia saudável. O que é prejudicial à democracia é a beligerância com quem pensa de forma diferente.

Assim, é necessário respeitar e valorizar a divergência de opiniões, por mais díspares que elas sejam. Não há nada mais antidemocrático do que forçar que todos pensem da mesma forma. O alerta vale para todos os espectros ideológicos. Também aqui há um longo caminho de aprendizagem no uso das redes sociais – e isso vale tanto para os cidadãos como para as autoridades. Ao comentar o fato de que quase todos os líderes mundiais utilizam o Twitter, Fernando Gallo, gerente de políticas públicas da empresa no Brasil, ressaltou que essa comunicação não é uma mão de via única. Mais vozes podem ser ouvidas pelos governantes. O desafio da democracia contemporânea é fazer com que essa incrível reunião de vozes seja de fato diálogo, e não monólogo, barulho ou xingamento.

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