A porta de entrada da política

A eleição municipal é a oportunidade por excelência para a renovação da política.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2020 | 03h00

A Constituição de 1988 atribuiu importantes competências à esfera municipal, o que faz com que as eleições para prefeito e vereador sejam muito relevantes para a população. Por exemplo, saúde, educação, transporte e habitação são afetados diretamente pela gestão municipal. Mas o pleito municipal tem também outra dimensão, de especial peso para a qualidade da democracia. As eleições municipais são a porta de entrada da carreira política. O pleito local é, portanto, a oportunidade por excelência para a tão necessária renovação da política, com gente competente e honesta, disposta a colocar suas melhores capacidades a serviço do interesse público.

Não é fruto do acaso a falta, tantas vezes criticada, de bons nomes nas esferas políticas federal e estadual. A ausência de boas opções nas eleições gerais é quase sempre resultado de escolhas irrefletidas no pleito municipal. Além dos efeitos negativos sobre a gestão da cidade, o descuido do eleitor com a esfera municipal faz com que sejam alçadas a uma posição de destaque na vida pública pessoas que talvez não tenham as necessárias condições de caráter e competência para a política.

Essa especial responsabilidade do eleitor não decorre apenas dos muitos efeitos da eleição municipal. A esfera local oferece uma oportunidade única. Nela, o eleitor tem maior proximidade com os candidatos. Assim, o voto para prefeito e vereador é mais acessível. O meio dado ao cidadão para descobrir e conhecer bons candidatos, alinhados ao que ele espera de uma boa gestão municipal e de uma boa política.

Expressiva quantidade de candidatos – por exemplo, em 2016 houve 460 mil candidatos a vereador no País – nas eleições municipais deixa evidente a falsidade das afirmações genéricas de que todos os políticos são corruptos ou de que nenhum político está comprometido com o interesse público. O que a crença irresponsável nesses preconceitos revela é, antes de mais nada, um eleitor desinteressado pela cidade e pela política. Ou seja, um mau cidadão.

Em 2018, o eleitor promoveu uma renovação inédita do Congresso, tanto da Câmara como do Senado. O resultado das urnas levou a uma significativa melhora do Parlamento. A atual legislatura é significativamente melhor do que a anterior. No entanto, para que essa renovação do Poder Legislativo federal, bem como do estadual, seja consistente – e não apenas um fato esporádico – é fundamental que o mesmo fenômeno, com a escolha de bons nomes, também ocorra no âmbito local.

É muito difícil que, sem um voto consciente e responsável nas eleições do próximo dia 15, haja bons nomes disputando o pleito de 2022 ou o de 2026. Naturalmente, não se pode ignorar que cada âmbito da Federação tem competências específicas, mas a boa política é uma carreira de obstáculos – e isso deve orientar o eleitor na escolha de seu candidato na esfera municipal, onde tudo começa. O decisivo é que, com seu voto, o eleitor apoie pessoas honestas e competentes, com capacidade e disposição para realizar a boa política.

As novas lideranças políticas, repetimos, nascem no âmbito local. E vale lembrar que elas não surgem por geração espontânea. O desabrochar de novos nomes – de mulheres e homens competentes, honestos e criativos, profundamente comprometidos com o bem público – se dá pelo voto. É nas eleições municipais, portanto, que o eleitor define as novas lideranças políticas.

Num regime democrático, todo o poder emana do povo. Sempre vigente e estruturando o funcionamento de todo o poder público, essa realidade é especialmente sentida nas eleições. Em cada pleito, o poder está nas mãos do eleitor. E em cada pleito, esse poder tem consequências específicas. No próximo dia 15, além de dizer a quem será entregue a gestão dos muitos assuntos públicos da esfera local, o eleitor definirá também como será a classe política dos próximos anos. Essa decisão merece especial cuidado.

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