A posse de Pazuello

Confirmação na Saúde indica que nada muda no olhar do governo sobre a pandemia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2020 | 03h00

Depois de quatro meses de interinidade, o general intendente Eduardo Pazuello foi empossado como ministro da Saúde. A sua confirmação como titular da pasta é a demonstração cabal de que nada muda no entendimento do governo do presidente Jair Bolsonaro do que venha a ser a maior emergência sanitária que se abateu sobre o País em mais de um século, uma tragédia que em apenas seis meses matou mais de 134 mil brasileiros.

A cerimônia de posse de Pazuello no Palácio do Planalto foi marcada pela negação da gravidade da pandemia de covid-19 e pela desconstrução, uma a uma, das mais importantes medidas preventivas apregoadas por autoridades sanitárias do Brasil e do exterior. O evento seguiu na mesma toada de outro, realizado no final de agosto, batizado como “Brasil vencendo a covid-19”, sugerindo que, para o governo federal, parece haver duas pandemias: a que aflige bilhões de pessoas no mundo inteiro e sua versão superestimada, que só teria atingido o Brasil.

Tanto o presidente como o ministro da Saúde criticaram o mote “Fique em Casa”, criado durante a gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta como forma de estimular a adesão ao isolamento social. Bolsonaro voltou a afirmar que a pandemia “poderia ter sido tratada de forma diferente”, vale dizer, com menos rigor, e criticou o fechamento de estabelecimentos comerciais e de escolas, classificado por ele como “absurdo”, o que contraria algumas das mais elementares recomendações médicas para evitar a disseminação do novo coronavírus.

O Brasil não chegou perto de adotar medidas de confinamento mais rígidas, como se observou em outros países, mas o engajamento voluntário de grande parte da sociedade nas medidas de proteção pessoal e coletiva, sem dúvida, foi fator decisivo para que a pandemia não fosse ainda mais severa. Tanto melhor teria sido se a comunicação entre as três esferas de governo fosse clara e coerente e as autoridades dessem exemplo.

“Não sou palpiteiro”, disse Bolsonaro, “converso com os meus ministros e, na maioria das vezes, de forma reservada, onde procuramos nos acertar. Com o ministro da Saúde anterior (Luiz Henrique Mandetta) nada foi resolvido nessas conversas. Aprendi que pior do que uma decisão mal tomada é a indecisão”, afirmou o presidente ao criticar a política de isolamento social.

Quando se trata da adoção de políticas públicas para lidar com uma pandemia potencialmente mortal, tanto indecisão como decisões mal tomadas são igualmente prejudiciais à sociedade. Não é por acaso que, entre as nações que compõem o G-20, o Brasil é o país com a maior mortalidade por milhão de habitantes (613,46). Se isto é estar “vencendo a covid-19”, oxalá esta Nação seja poupada dos duros efeitos de uma derrota.

Na posse de Pazuello como ministro da Saúde também se viu mais uma enfática defesa da hidroxicloroquina como medicamento eficaz para tratar os acometidos por covid-19. Não é demais reforçar que não há qualquer estudo clínico sério que ateste essa eficácia. Ao contrário: o uso off label da hidroxicloroquina, ou seja, sem indicação clínica, é muito arriscado e pode, nos casos mais graves, até matar. Portanto, também surpreende que esteja em estudo no governo a inclusão do medicamento, junto com a ivermectina e a azitromicina, no programa Aqui Tem Farmácia Popular, chamado “Kit covid-19”.

Jair Bolsonaro aproveitou a posse de Eduardo Pazuello para, mais uma vez, distorcer a decisão do Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a competência concorrente da União, dos Estados e dos municípios para adoção de medidas de combate à pandemia, e assim tentar eximir-se de responsabilidade pelos destinos do País no curso deste flagelo.

Ao fim e ao cabo, o que se vê é que não importa quem esteja à frente do Ministério da Saúde no momento mais crítico da história recente do País. Há de prevalecer sempre a obscura visão que Bolsonaro tem da pandemia e, assim, só resta às forças vivas da Nação mitigar seus efeitos como puderem.

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