A previsível negação e o esperado escárnio

Reação do clã Bolsonaro ao relatório da CPI – uma soma da negação e do escárnio que marcaram o comportamento da família ao longo da crise sanitária – já era esperada

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2021 | 03h00

A reação do clã Bolsonaro à leitura do relatório da CPI da Covid – que aponta o presidente Jair Bolsonaro como o principal responsável pela dimensão trágica que a pandemia adquiriu no Brasil – foi um misto de negação e escárnio. Embora este fosse o comportamento esperado de uma família que nesses longos meses de infortúnio negou a gravidade da crise sanitária e fez troça das dores de seus concidadãos, não deixa de indignar os brasileiros decentes – em especial os familiares e amigos dos mais de 604 mil mortos – a forma como o presidente da República e seus filhos mais velhos reagiram às graves imputações contidas no documento.

Em Russas (CE), durante cerimônia de inauguração de uma etapa da obra de transposição do Rio São Francisco, Bolsonaro disse não ter culpa de “absolutamente nada” do que lhe foi imputado pelo relator da comissão de inquérito, o senador Renan Calheiros (MDB-AL). No evento, de evidente viés eleitoral, Bolsonaro afirmou que a CPI se prestou apenas a “tomar tempo do nosso ministro da Saúde, de servidores, de pessoas humildes e de empresários”. Ao final de um minucioso trabalho, a CPI, na visão do presidente da República, não teria produzido “nada além de ódio e rancor entre alguns de nós”.

A cerca de 2 mil quilômetros do palanque em que Bolsonaro minimizou as conclusões da CPI e, mais uma vez, eximiu-se de suas responsabilidades como chefe de Estado e de governo, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) tripudiava não só de seus colegas, mas de toda a sociedade, ao ser questionado, na entrada da sala da CPI no Senado, sobre como o presidente reagiria às conclusões da comissão de inquérito. “Você sabe aquela gargalhada dele?”, perguntou o senador, imitando a risada de Bolsonaro. Para o buliçoso senador, o relatório da CPI “é uma piada de muito mau gosto”. No Twitter, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos) publicou uma foto em que aparece gargalhando, como a confirmar a declaração do irmão mais velho. Ambos, como o pai, são alvos de pedidos de indiciamento pelo relator Renan Calheiros.

Durante transmissão pelas redes sociais na noite do dia 20 passado, o senador Flávio Bolsonaro voltou a chamar o relator da CPI da Covid de “vagabundo” e classificou o relatório de Renan Calheiros como “o maior atestado de idoneidade do governo Jair Bolsonaro”. É o jogo jogado das lides políticas. Mas, no mundo real, onde atos têm consequências, não é bem assim. O clã Bolsonaro tem razões de sobra para conter o riso caso as conclusões da CPI sejam levadas a sério, como se espera, pelo Congresso e pela Procuradoria-Geral da República.

Sobre o presidente Jair Bolsonaro não recaem suspeitas de ter comprado um carro com dinheiro de corrupção, como aconteceu com Fernando Collor, mas sim de ter cometido crimes contra a humanidade, de epidemia com resultado em morte, de prevaricação, de incitação ao crime e de charlatanismo, entre outros. Há implicações muito sérias. Caso seja processado, julgado e condenado por esses crimes, Bolsonaro pode ser sentenciado a penas que somam até 38 anos e 9 meses de prisão, considerando as penas máximas previstas para aqueles crimes no Código Penal.

Coincidentemente, no mesmo dia em que o relatório da CPI da Covid apresentava ao País os detalhes das urdiduras do Palácio do Planalto para fazer a pandemia parecer menos grave do que de fato é, o consórcio de veículos de imprensa – formado pelo Estado, O Globo, g1, Extra, Folha de S.Paulo e UOL – completou 500 dias ininterruptos de trabalho. A união de representantes do jornalismo livre e independente foi o farol que orientou a população em meio às trevas da desinformação, não raras vezes patrocinada pelo próprio governo federal. Basta lembrar que o consórcio foi criado justamente para suprir a falta de informações confiáveis no Ministério da Saúde.

Em outra feliz coincidência, na mesma data o País atingiu a auspiciosa marca de 50% da população totalmente imunizada contra o coronavírus. Não poderia ser mais simbólico. Informação confiável e vacinas foram os antídotos para a sociedade lidar com o negacionismo, a irresponsabilidade e a inépcia de Bolsonaro na condução do País em meio à pior tragédia de sua história.

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