A reanimação dos serviços

Com a reabertura, o setor se movimenta, mas sem recuperar o nível do ano anterior

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2020 | 03h00

A vida começa a ganhar, de novo, ares de normalidade, com a volta às compras, a frequência a bares e restaurantes, a reabertura de barbearias e salões de beleza e o retorno às viagens. Com avanço de 5% em junho, também o setor de serviços começou a recuperar-se, depois de um recuo de 19,5% em quatro meses de taxas negativas. Resultados positivos já haviam surgido em maio no comércio varejista e na indústria. Mas só o varejo, no fim do primeiro semestre, retornou ao nível de fevereiro, anterior ao primeiro impacto da pandemia.

A atividade aumentou, em junho, nos cinco grandes grupos de serviços cobertos pela pesquisa mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A maior expansão ocorreu no transporte aéreo, um dos negócios mais prejudicados pela crise iniciada na segunda quinzena de março. Com enormes problemas financeiros, empresas precisaram de ajuda governamental, em vários países, para escapar da falência.

No Brasil, os serviços aéreos diminuíram 27,1% em março e 73,1% em abril. A expansão de 9,2% em maio e 58,9% em junho ainda foi amplamente insuficiente para conduzir o setor de volta ao patamar de fevereiro. No semestre a atividade ficou 35,2% abaixo daquela registrada de janeiro a junho de 2019. Em conjunto, o setor de transportes acumulou alta de 11,9% em maio e junho, depois de perder 25,2% nos dois meses anteriores. Nenhum modal escapou das dificuldades, mas os danos foram menores, como se poderia esperar, no segmento rodoviário.

O avanço geral de 5% em junho foi impulsionado principalmente pela expansão de 17,3% dos serviços de alojamento e alimentação. O segmento de restaurantes foi um dos mais prejudicados durante a fase mais severa do isolamento social. Vários funcionaram com serviços de entregas, mas isso apenas atenuou as perdas e muitos nem reabriram as portas quando foram autorizados. Nem todos os empresários do setor tiveram dinheiro para as despesas de reabertura. Mesmo restaurantes tradicionais e famosos acabaram condenados ao fechamento definitivo.

Último a entrar em recuperação, o setor de serviços produziu no primeiro semestre 8,3% menos que no período de janeiro a junho do ano passado. O pior resultado, nesse tipo de confronto, foi o das empresas de alojamento e alimentação, com 36,6% de perda em relação à atividade de um ano antes. Só a agropecuária, entre os grandes setores, tem conseguido manter desempenho satisfatório, ano após ano, mesmo com algumas oscilações.

A indústria produziu no primeiro semestre 10,9% menos do que um ano antes. As vendas do comércio varejista foram 3,1% inferiores às da primeira metade de 2019, mas seu acumulado em 12 meses ainda foi ligeiramente positivo (+0,1%). Em 12 meses a indústria recuou 5,6% e os serviços perderam 3,3%. O caso da indústria é o mais grave, porque o setor vem fraquejando há pelo menos oito anos. Há empresas industriais inovadoras, eficientes e competitivas, mas a condição da maior parte do setor é diferente.

A reativação da indústria, do varejo e dos serviços foi possibilitada, em boa parte, pelo auxílio emergencial concedido a dezenas de milhões de consumidores. Além disso, medidas de apoio a empresas limitaram as demissões. Sem isso, as condições do emprego, hoje piores do que antes da nova crise, teriam ficado bem mais feias. Mas é difícil prever, agora, o ritmo dos negócios quando as ações emergenciais tiverem cessado.

Não se conhece um plano oficial de sustentação da retomada. O presidente prometeu respeitar o teto de gastos e apoiar privatizações e reformas. Esse discurso pode tranquilizar a equipe econômica e reduzir as inquietações no mercado financeiro, mas as promessas ainda são vagas. Além disso, bastará vender algumas estatais e discutir mudanças tributárias e administrativas para dinamizar a economia? Mesmo o crescimento estimado para 2021 – cerca de 3,50%, pelas projeções do mercado – será insuficiente para levar o Produto Interno Bruto (PIB) de volta ao nível anterior à crise atual. O País precisa de algo mais que discursos.

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