A rejeição é mera consequência

Bolsonaro abre um fosso, cada vez maior, entre seu governo e a população

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2020 | 03h00

Ao chegar ao final de seu terceiro semestre, o governo de Jair Bolsonaro atingiu o pior patamar de avaliação, segundo a pesquisa de opinião feita pela Quaest e divulgada pelo site Jota no dia 22 de junho. Mais da metade dos brasileiros (54%) avalia o governo como ruim ou péssimo. Em fins de abril, a avaliação negativa era dada por 48% dos entrevistados e em dezembro do ano passado, por 32%. A pesquisa confirma, assim, que Jair Bolsonaro agride não apenas a ciência, as instituições e o Estado Democrático de Direito. Seu governo confronta o sentimento majoritário da população.

A avaliação negativa de Jair Bolsonaro reflete também nas perspectivas sombrias a respeito do futuro do País. Na pesquisa, 71% disseram estar preocupados com o porvir do Brasil. Para a maioria da população, o País está piorando (54%) e indo na direção errada (63%).

Observa-se também uma clara quebra de expectativa com o governo do ex-capitão. Para 56% dos entrevistados, Jair Bolsonaro está fazendo um governo pior do que eles esperavam. Esse dado manifesta a falácia do argumento, muito repetido pelos camisas pardas bolsonaristas, de que a crítica e a avaliação negativa do presidente Bolsonaro seriam na realidade uma torcida contra o governo e, em última análise, contra o País. É precisamente o contrário. Cidadãos que deram voto de confiança ao governo de Jair Bolsonaro, acreditando que ele seria capaz de promover uma melhoria do País, sentem-se agora frustrados pela gestão do presidente.

Outro dado a confirmar a quebra de expectativa é o crescimento da avaliação negativa entre os eleitores que votaram no candidato do PSL em 2018. Em março, entre os que declararam voto em Jair Bolsonaro, 9% avaliavam de forma negativa o governo. Agora, entre os eleitores do candidato do PSL, 22% avaliam o governo Bolsonaro como ruim ou péssimo. É um sinal de que a base de apoio bolsonarista não é inteiramente imune a avaliar e a ponderar as atitudes do presidente. Como mostram os números da pesquisa, a recente escalada de radicalismo e autoritarismo de Jair Bolsonaro não tem feito sucesso entre seus apoiadores.

Diante desse cenário, é incompreensível que o presidente Jair Bolsonaro siga sem retificar o rumo de suas atitudes e prefira criar conflito com outros Poderes, menosprezar a pandemia do novo coronavírus, privilegiar interesses de familiares e de compadres e omitir-se na tarefa de realizar as reformas de que tanto o País precisa. De forma deliberada, Jair Bolsonaro abre um fosso, cada vez maior, entre seu governo e a população. De forma inequívoca, a maioria dos brasileiros rejeita o modo que ele governa o País, não vendo motivos para dar continuidade ao confronto, ao caos e à ineficiência.

No entanto, não é novidade que Jair Bolsonaro costuma negar o que lhe desagrada. Tanto em sua fala como em suas atitudes, os fatos contam pouco. Basta ver que a doença covid-19, que paralisou o mundo, foi chamada de “gripezinha”. Sendo assim, não surpreende que Jair Bolsonaro e seus apoiadores contestem habitualmente os resultados das pesquisas de opinião, alegando que são forjadas. Segundo eles, tais números seriam mais uma manobra para desestabilizar o seu governo, que continuaria contando com o apoio majoritário da população. 

Diante dessa cegueira deliberada, vale lembrar que os resultados negativos das pesquisas de opinião não são rigorosamente nenhuma surpresa. Surpreendente é que um governo, eleito com a bandeira do combate à corrupção, da eficiência estatal e das reformas para destravar o desenvolvimento do País, tenha, em um ano e meio, uma extensa trajetória de irracionalidade, autoritarismo e confusão entre o público e o privado. E, com o passar do tempo, os casos se acumulam cada vez com mais rapidez – demissão de dois ministros da Saúde no meio de uma pandemia, interferência política na Polícia Federal, proteção de familiares e amigos envolvidos em escândalos, participação em atos contrários ao Estado Democrático de Direito. A rejeição é mera consequência.

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