A rentabilidade do agronegócio

O setor gera dólares enquanto o presidente insiste em desprezar o risco ambiental

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 21h00

O Brasil faturou US$ 101,39 bilhões com exportações do agronegócio nos 12 meses terminados em junho. Graças ao superávit de US$ 88,35 bilhões gerado pelo setor, a balança comercial de mercadorias continuou no azul e a segurança externa da economia brasileira foi preservada. O presidente Bolsonaro põe em risco esses bilhões e essa preciosa segurança quando mantém sua desastrosa política ambiental e sustenta no cargo o ministro Ricardo Salles. Em vez de chamar a União Europeia de “seita ambientalista”, ele deveria tomar como alerta o estudo publicado nos últimos dias pela revista Science. Segundo esse estudo, 20% da soja e 17% da carne exportadas do Brasil para o mercado europeu estão “potencialmente contaminadas por desmatamento ilegal”.

Os autores do artigo usam linguagem cautelosa, apontam problemas em uma pequena parcela de propriedades e proporcionam pistas para uma fiscalização mais precisa pelas autoridades brasileiras. Essas propriedades, segundo o estudo, são “maçãs podres do agronegócio brasileiro”. O vice-presidente Hamilton Mourão, coordenador do Conselho da Amazônia, disse ter visto a divulgação do estudo “sem estresse” e prometeu uma resposta prática: “Nós temos de avaliar, verificar, temos de fazer isso com o Ministério da Agricultura”.

O ministério manifestou-se por meio de nota, chamando a atenção para um aspecto importante do estudo. Como o artigo sugere “e os dados demonstram”, mais de 90% dos produtores têm evitado envolver-se “com qualquer tipo de desmatamento ilegal”. Não se pode, portanto, “vilanizar a agropecuária”.

Diante das indicações contidas no estudo, a melhor atitude é aquela mencionada pelo vice-presidente: verificar os fatos, conferir os dados numéricos e geográficos e esclarecer o assunto. O coordenador do Conselho da Amazônia, assim como a ministra Tereza Cristina, têm reconhecido os problemas e buscado meios para conter a devastação das florestas. Com a regularização fundiária na região amazônica, propriedades e responsabilidades serão claramente definidas e isso poderá facilitar, como tem dito a ministra, o controle ambiental.

Em vez de negar os problemas ou simplesmente apontar interesses comerciais no discurso ambientalista, é preciso resgatar a boa imagem do agronegócio brasileiro. Os interesses comerciais são evidentes. O protecionismo agrícola, muito forte na Europa e em várias partes do mundo rico, é reforçado quando se mancha a reputação dos produtores brasileiros. Esse reforço tem sido fornecido principalmente pelo presidente Jair Bolsonaro, ajudado com desastrosa eficiência por alguns dos ministros mais nocivos.

Não adianta falar em defesa do agronegócio e denunciar interesses protecionistas quando se mantém uma indisfarçável política antiecológica. A péssima contribuição dos ministros de Relações Exteriores e do Meio Ambiente é inegável. Mas também as atitudes no mínimo ambíguas do ministro de Ciência e Tecnologia têm contribuído para manter em alerta os observadores e críticos do desflorestamento.

O presidente Bolsonaro tem-se mostrado incapaz de entender esses pontos e a real importância do agronegócio. Mas o setor sobrevive e continua garantindo o abastecimento interno, sustentando indústrias fornecedoras de insumos e processadoras de matérias-primas e gerando enorme volume de dólares.

No primeiro semestre, o agronegócio exportou produtos no valor de US$ 51,63 bilhões e acumulou superávit de US$ 45,40 bilhões. Isso compensou com grande folga o déficit de US$ 23,07 bilhões dos demais setores. Em junho, a receita foi de US$ 10,17 bilhões, com ganho de 24,5% em relação às vendas de um ano antes, e o saldo mensal foi um superávit de US$ 9,34 bilhões. As somas faturadas no semestre e no sexto mês foram recordes na série iniciada em 1997. Em junho o setor forneceu 56,8% da receita comercial (44,4% um ano antes). No meio da crise mundial, o agronegócio foi ainda mais importante para a segurança externa da economia. Também isso parece escapar à percepção do presidente e de vários ministros.

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