A resistência do populismo

Os fatores que geraram a onda populista no mundo continuam se impondo, e em alguns casos, como no Brasil, estão ainda mais potentes

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2019 | 03h00

Mesmo com as dificuldades políticas que ora desafiam vários dos líderes populistas que chegaram ao poder nos últimos anos, o sentimento de desconforto de parte considerável da sociedade que alimentou o discurso desses demagogos, inclusive no Brasil, mostra-se ainda bastante vigoroso. Foi o que constatou uma ampla pesquisa do instituto Ipsos, de cujos resultados se pode depreender que eventuais reveses eleitorais de alguns populistas não significarão necessariamente o fim da onda que os impulsionou.

Realizada entre março e abril deste ano, a pesquisa ouviu 18.528 adultos em 27 países de todos os continentes, entre os quais o Brasil. No geral, 70% dos entrevistados consideram que a economia de seus países está capturada pelos interesses dos ricos e dos poderosos. Além disso, 66% entendem que a política tradicional ignora “pessoas como eu”, e 54% afirmam que a sociedade de seus países está “fraturada”. A região do mundo que teve os piores resultados nessas questões foi a América Latina.

No Brasil, 78% dos entrevistados disseram ver a sociedade “fraturada”, o segundo índice mais alto entre os países pesquisados – fica atrás somente da Polônia, com 84%, e muito à frente dos Estados Unidos (60%), país que tem apresentado forte polarização desde a campanha eleitoral à presidência que consagrou Donald Trump. Em 2016, ano do impeachment da presidente Dilma Rousseff, 77% dos brasileiros disseram considerar a sociedade “fraturada”. Ou seja, nada mudou de lá para cá.

É significativa também (75%) a parcela dos brasileiros que consideram que a economia do País foi capturada pelos interesses dos ricos e dos poderosos, bem acima da média dos países pesquisados. Há três anos, 69% dos brasileiros tinham essa opinião. O recrudescimento desse sentimento provavelmente se explica pela persistência da estagnação econômica e do desemprego, que afetam em cheio os humores de uma classe média que viu sua renda se deteriorar enquanto uma elite política, empresarial, e estatal mantinha privilégios.

Talvez como resultado disso, 72% dos brasileiros disseram considerar que os partidos tradicionais e os políticos em geral não se importam com “pessoas como eu” – isto é, com os cidadãos comuns. Essa fatia da população, que era de 64% em 2018, tem sido o esteio dos demagogos, que se apresentam como os únicos dispostos a dar ouvidos aos eleitores que se julgam esquecidos pelos políticos.

Também está em expansão, de 48% em 2016 para 53% neste ano, o porcentual de brasileiros que, desencantados com a política e com os políticos, defendem a atuação de um líder “forte”, que esteja disposto a “quebrar as regras”. Para 73% dos brasileiros, esse líder “forte” é necessário para “retirar o país do controle dos ricos e dos poderosos”.

Essa demanda populista é possivelmente consequência da percepção, verificada em parte considerável das entrevistas em todos os países pesquisados, de que a vida real das pessoas comuns não é compreendida ou levada em conta pelos especialistas envolvidos na formulação de políticas públicas. Para 62% dos entrevistados, em média – 59% no Brasil –, os especialistas “não entendem a vida das pessoas como eu”. Depreende-se que o líder populista, ao contrário, seria o único capaz de entender essas pessoas e traçar políticas adequadas a suas necessidades.

Por fim, a pesquisa mensurou a persistência da xenofobia em larga escala, um dos grandes motores do populismo. Na média, 60% dos entrevistados disseram que os empregadores deveriam priorizar trabalhadores nacionais em detrimento dos imigrantes se o desemprego estiver alto. Além disso, 43% consideram que os imigrantes tiram serviços públicos dos “reais” compatriotas – no caso do Brasil, que tem recebido um número grande de refugiados venezuelanos, o total dos entrevistados que pensam assim saltou dez pontos porcentuais entre 2016 e 2019, passando de 27% para 37%.

Todos esses números são um indicativo claro de que os fatores que geraram a onda populista ao redor do mundo continuam se impondo, e em alguns casos, inclusive no Brasil, estão ainda mais potentes – o que mostra a urgência da revalorização da política como o único mecanismo verdadeiramente democrático de solução de impasses e avanço social.

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