A responsabilidade do País

O ano de 2022 é desafiador. O País será capaz de enfrentar responsavelmente os seus problemas? Talvez o grande perigo seja repetir erros do passado, insistindo em opções populistas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2022 | 03h00

Ano Novo é tempo de esperança: de olhar para a frente com otimismo, aprendendo com os erros do passado e renovando os melhores sonhos para o futuro. Essa dinâmica pode ser aplicada não apenas na vida pessoal e familiar, mas também nos rumos do País. E aqui o prognóstico brota imediatamente: 2022 será um ano de grandes desafios, seja pela gravidade da crise social e econômica – há muitos brasileiros passando fome –, seja pelas decisões que a população terá de tomar nas eleições do segundo semestre.

Neste ano, muita coisa está em jogo. Não é tanto saber se o próximo governo será de esquerda ou de direita ou se qual parcela da população ficará contente com o resultado eleitoral. O tema é muito mais grave. O País será capaz de enfrentar responsavelmente os seus problemas, tanto os de curto prazo, como os de médio e longo prazos? A sociedade brasileira será capaz de dar em 2022 os passos necessários para enfrentar, de forma prioritária e responsável, a fome, a miséria, a falta de oportunidades educativas e profissionais para tantos jovens, o desemprego que assola tantas famílias?

Os últimos dois anos foram especialmente difíceis. A pandemia de covid-19 tirou muitas vidas, impôs enormes restrições econômicas e agravou questões sociais antigas, em especial reforçou desigualdades e multiplicou vulnerabilidades. Junto a isso, e de forma ainda mais desanimadora – pois a atuação federal podia ter sido muito diferente –, o presidente Jair Bolsonaro esbanjou irresponsabilidade, negacionismo e absoluta incapacidade de governar.

Para piorar, o Legislativo foi muitas vezes conivente com o desequilíbrio do Executivo federal, além de se aproveitar da falta de rumo do governo para fazer prevalecer interesses e modos pouco republicanos. O orçamento secreto, em meio a uma pandemia – quando a ação estatal deveria ser ainda mais transparente e mais informada por critérios técnicos –, é sintoma paradigmático de um cenário que guarda poucas razões para o otimismo. 

Além disso, não se deve esquecer que esse Executivo e esse Legislativo – que trouxeram tanta desesperança nos últimos tempos – foram eleitos precisamente no pleito de 2018, marcado pelo desejo de mudança e renovação por parte do eleitor. Ou seja, o cenário é, sem nenhum exagero, profundamente desafiador. Abundam os motivos para a frustração com a política, as condições sociais e econômicas são especialmente adversas e, diante de tudo isso, o eleitor será instado a escolher os rumos do País.

Nessa situação, talvez o principal perigo seja repetir os erros do passado, insistindo em opções populistas que, em vez de oferecerem novas propostas e caminhos, reafirmam justamente as escolhas que gestaram a atual crise. O bolsonarismo não foi solução para o lulopetismo. Basta ver que Jair Bolsonaro tentou, tal como fez o PT, “ocupar” com seus seguidores a máquina pública, sua rigorosa inaptidão para melhorar a eficiência estatal e seu interesse exclusivo, desde que chegou ao Palácio do Planalto, pela questão eleitoral. Da mesma forma, o lulopetismo não é solução para o bolsonarismo.

Lula e Bolsonaro têm muitas diferenças, mas possuem uma radical semelhança: os dois são parte do problema, tendo contribuído, cada um a seu modo, para a atual crise social, econômica, política, cívica e moral. Um dos aspectos mais perversos da similaridade entre Lula e Bolsonaro é o modo como tratam as classes mais pobres. Uma vez que medem tudo pelo interesse eleitoral, a vulnerabilidade social, em vez de ser enfrentada responsavelmente, é usada como oportunidade eleitoreira. Para os populistas, a autonomia do cidadão é obstáculo para a instauração do seu projeto de poder. 

Em 2022, o País tem o desafio de enfrentar responsavelmente o drama social e econômico que recai sobre boa parte da população. Em vez de cabresto político, a pobreza deve ser o grande estímulo para políticas públicas responsáveis. É hora de cuidar generosamente dos mais vulneráveis, é hora de construir soluções efetivas e sustentáveis. Basta de retrocesso.

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