A retomada dos serviços

Atrasando a vacina, o governo retardou a reação de uma grande fonte de empregos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 03h00

Com a vacinação e a retomada gradual das atividades presenciais, como em restaurantes, hotéis e viagens aéreas, o setor de serviços já acumulou nos 12 meses até julho uma produção 2,9% maior que a do período anterior. Maior fonte de empregos, embora em grande parte informais, os serviços poderiam ter avançado mais velozmente, com grande benefício para a economia brasileira, se o poder central tivesse aderido mais cedo ao trabalho de imunização. Desprezando as primeiras ofertas de vacinas, o Executivo continuou tratando a saúde dos brasileiros com a negligência demonstrada desde o início da pandemia. Apesar dos entraves, a produção de serviços cresceu 1,1% em julho e avançou 5,8% em quatro meses. O volume de sete meses foi 10,7% maior que o de um ano antes. Em julho, o setor alcançou um patamar 3,9% superior ao da pré-pandemia, em fevereiro de 2020. Os números são da pesquisa mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A recuperação tem sido, no entanto, muito desigual entre os vários segmentos do setor. Em julho, só dois dos cinco grandes grupos de serviços tiveram resultados positivos. O amplo conjunto de serviços prestados às famílias teve crescimento mensal de 3,8% e superou por 76,3% o volume produzido um ano antes. O outro grupo foi o dos serviços profissionais, administrativos e complementares, com expansão de 0,6% no mês e 14,1% em relação ao desempenho de julho de 2020. Os dois segmentos foram os mais prejudicados no pior período da pandemia, no ano passado.

Mesmo depois do choque inicial, o surto de covid-19 continuou afetando seriamente esses dois segmentos. A persistência do problema é bem visível quando se considera o balanço de 12 meses. Nesse período, o volume de serviços prestados às famílias foi 12,4% menor que o dos 12 meses terminados um ano antes. As perdas nos trabalhos de restaurantes, bares e hotéis, incluída, naturalmente, a redução do turismo, estão representadas nesses números. No caso dos serviços profissionais, administrativos e complementares, as perdas foram menores, mas o desempenho em 12 meses foi negativo, com recuo de 1,9%.

Também muito afetado pelas limitações sanitárias e pela crise do turismo, o transporte aéreo continua com recuperação incompleta. Em julho, a atividade da aviação foi 95,8% superior à de um ano antes, mesmo com recuo mensal de 7,8%. No ano, superou por 28,6% o desempenho de janeiro a julho de 2021. Mas o acumulado em 12 meses foi 7,3% menor que o do período anterior.

No caso dos serviços prestados às famílias, a covid-19 afetou os dois lados do mercado, prejudicando a demanda e enfraquecendo a oferta. “Alguns estabelecimentos fecharam e outros reabriram, mas ainda não operam com plena capacidade”, comentou o analista Rodrigo Lobo, do IBGE. Do lado da demanda, acrescentou, o avanço é prejudicado pela estagnação da massa de rendimentos e pelo desemprego.

A recuperação do setor, apesar dessas limitações, é explicável principalmente pelo desempenho dos segmentos de serviços não presenciais, desde o primeiro grande impacto da pandemia. Esse grupo inclui os serviços de tecnologia da informação, as atividades financeiras, correio, a armazenagem e diversos trabalhos na área de transportes.

O conjunto formado por transportes, serviços auxiliares de transportes e correio produziu de janeiro a julho 15,7% mais que um ano antes e acumulou expansão de 5,8% em 12 meses. Dentro desse conjunto, o transporte aquaviário cresceu 10,7% nos 12 meses até julho. No mesmo período, o grupo armazenagem, serviços auxiliares de transportes e correio apresentou produção 9,5% maior que a dos 12 meses anteriores. A mesma comparação apontou resultado positivo de 4,5% para o transporte terrestre.

Apesar da recuperação, o volume de serviços ficou em julho 7,7% abaixo do recorde alcançado em novembro de 2014, embora tenha sido o maior desde março de 2016. Uma retomada mais forte dependerá do controle da pandemia e do aumento da renda familiar, prejudicada pelo desemprego e pela inflação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.