A retribuição da lealdade

Jair Bolsonaro não tem nenhum pudor de criticar publicamente o vice-presidente

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2021 | 03h00

Jair Bolsonaro teve grande sorte na escolha de seu companheiro de chapa nas eleições de 2018. O vice-presidente Hamilton Mourão tem se portado com uma lealdade absolutamente ímpar ao presidente da República desde o início do mandato e, de forma muito especial, desde que as ações e omissões de Jair Bolsonaro trouxeram à baila o tema do impeachment.

Há manifestações em todo o País pedindo que o presidente da República seja responsabilizado por sua conduta durante a pandemia. Há lideranças civis e políticas defendendo a necessidade de remover, pelas vias constitucionais, o presidente da República. Mas não há notícia, nem sequer fumaça, de que o vice-presidente Hamilton Mourão tenha dado o menor sinal de apoio a um eventual processo de impeachment.

Hamilton Mourão não tem relação com nenhuma das várias movimentações pelo impeachment do presidente Bolsonaro. O compromisso do vice-presidente com o presidente da República é um fato notório, sobre o qual não recai a menor suspeita contrária.

O comportamento de Hamilton Mourão é, portanto, fonte de tranquilidade para Jair Bolsonaro. O presidente da República contra o qual foram apresentados mais pedidos de impeachment na história do País tem um vice-presidente que lhe é rigorosamente fiel.

Decorridos dois anos e meio de governo, tão pródigos em gerar suspeitas de crimes de responsabilidade, pode-se afirmar, sem exagero, que Hamilton Mourão é o vice-presidente ideal de Jair Bolsonaro. Por mais desprovida de ambição política que fosse, qualquer outra pessoa teria motivos de sobra, em conformidade com a Constituição e a lei, para incentivar, desde a vice-presidência, um processo de impeachment.

Imagine-se, como mera hipótese, se o vice-presidente da República fosse algum político experiente do Centrão. Jair Bolsonaro teria um patamar, bem mais elevado, de preocupação em relação à sua permanência no cargo.

No entanto, apesar da contundente lealdade de Hamilton Mourão, Jair Bolsonaro não tem nenhum pudor de afastá-lo dos assuntos de governo ou mesmo de criticá-lo publicamente. “O Mourão faz o seu trabalho. Ele tem uma independência muito grande, por vezes atrapalha um pouco a gente, mas o vice é igual cunhado: você casa e tem que aturar o cunhado do teu lado. Você não pode mandar o cunhado ir embora”, disse Jair Bolsonaro no dia 26, em entrevista à Rádio Arapuan, da Paraíba.

Mais do que retratar o comportamento do vice-presidente, a fala de Jair Bolsonaro revela com crueza quem é Jair Bolsonaro. Até hoje, Hamilton Mourão cumpriu rigorosamente todas as tarefas de que o presidente Bolsonaro o encarregou. No entanto, Jair Bolsonaro menciona “uma independência muito grande” do vice-presidente.

Tal comentário revela que Jair Bolsonaro não se sente confortável com nenhum outro comportamento que não seja a completa submissão à sua pessoa. Não por acaso, na mesma entrevista, Jair Bolsonaro referiu-se ao anterior ministro da Saúde desta forma: “O general Pazuello, que fez um trabalho fantástico”. No dia em que Eduardo Pazuello assumiu a pasta, havia 14,8 mil mortos por covid no País. Quando deixou o cargo, o número se aproximava dos 300 mil.

É também peculiar a afirmação de Jair Bolsonaro no sentido de que Hamilton Mourão “por vezes atrapalha um pouco a gente”. O vice-presidente não reclama da condução do governo, não critica medidas e atitudes de Jair Bolsonaro, sempre busca motivos para defender as posições do Palácio do Planalto. Desde a posse no cargo, é conhecido por medir cuidadosamente as palavras nas entrevistas, para evitar qualquer impressão de crítica. Mesmo assim, Jair Bolsonaro considera que o vice-presidente “atrapalha um pouco a gente”.

Terá o presidente Bolsonaro tamanha limitação cognitiva para não perceber que os problemas enfrentados pelo governo não são causados por Hamilton Mourão? Ou será que, de fato, o vice-presidente atrapalha os planos de Jair Bolsonaro, impedindo sua integral realização? Tanto num sentido como no outro, a frase de Bolsonaro suscita muito receio.

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