A ruptura digital e a democracia

Muitos acreditam que a tecnologia abalará a democracia, mas há outras possibilidades

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo

09 de março de 2020 | 03h00

Qual o impacto da tecnologia sobre a democracia? Ela debilitará ou fortalecerá as principais instituições democráticas? Buscando respostas, o Pew Research Center consultou quase mil peritos em tecnologia, entre empresários, políticos, inovadores, cientistas e ativistas nos Estados Unidos. Quase 50% acreditam que na próxima década a tecnologia debilitará os aspectos centrais da democracia, enquanto 33% creem que ela os fortalecerá e 18% não vislumbram mudanças significativas.

“Aos anos de entusiasmo desenfreado sobre os benefícios da internet seguiu-se um período de choque tecnológico à medida que os usuários exploram a velocidade, o alcance e a complexidade da internet para propósitos nefastos”, ponderam os pesquisadores. “Nos últimos quatro anos – período das decisões do Brexit, das eleições presidenciais norte-americanas e várias outras –, a ruptura digital da democracia se tornou uma preocupação dominante.” A principal apreensão é com os impactos sobre os equilíbrios de poder e a confiança nas instituições. 

Muitos creem que os poderosos se servirão da tecnologia para concentrar e legitimar seu domínio sobre as massas. Nessa perspectiva, os sistemas de vigilância e manipulação das redes sociais, combinados com a falta de fluência digital, produzem um público alienado e vulnerável a guerras de informação e engenharias eleitorais. A pressão sobre o jornalismo independente dos vídeos deep-fakes e outras táticas de desinformação tendem a atrofiar o pensamento crítico, multiplicando o tribalismo midiático – uma tendência intensificada pelo modo como as grandes empresas de tecnologia, voltadas por natureza ao lucro e não ao bem comum, exploram os dados dos usuários em favor de seu monopólio.

São vetores que tendem a desgastar a confiança nas instituições democráticas, desencadeando uma espiral de descrença e desespero que precipita a opinião pública na oscilação entre a apatia e o extremismo. Conforme a estudiosa de Harvard e do MIT Judith Donath, neste cenário “a democracia ficará em frangalhos” e os desastres criados ou facilitados pela tecnologia dispararão a “velha resposta” – a virada do povo movido pelo medo ao autoritarismo.

Mas há quem acredite que as pessoas são capazes de se adaptar e vencer esses desafios por meio da própria tecnologia. A inovação é inevitável, mas “há uma longa história da introdução de novas formas midiáticas criando um caos inicial e depois sendo assimiladas na sociedade como forças positivas”, disse Paul Saffo, pesquisador da Stanford MediaX. “Isso ocorreu com a imprensa no início dos anos 1500 e com os jornais há um século. Novas tecnologias são como animais selvagens – leva tempo para as culturas os domesticarem.”

Esta domesticação exige esforço no engajamento de educadores e gestores públicos para o letramento digital do público e o aprimoramento da ética entre os profissionais da tecnologia. Neste cenário, projeta Donath, “prevalece a democracia pós-capitalista. Oportunidades justas e equitativas são reconhecidas para o benefício de todos. A riqueza da automação é compartilhada entre toda a população. Investimentos em educação fomentarão o pensamento crítico e a criatividade artística, científica e tecnológica. Novos métodos forjarão cada vez mais a democracia direta – a Inteligência Artificial traduzirá a preferência dos eleitores em políticas públicas”.

O balanço sugere que a médio prazo as possibilidades estão abertas. A qualidade mesma das críticas ao abuso da tecnologia é prova de que é possível conceber e concretizar o seu bom uso em favor da democracia. Mas é certo que isso não acontecerá por um processo de evolução natural espontâneo. No horizonte imediato, o conflito de interesses e opiniões na arena civil deve se intensificar. Muito mais do que gozar os frutos das tecnologias nascentes, este é um tempo de cultivar suas raízes e defendê-las das ambições mais perversas. 

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