A saúde no pós-pandemia

O sistema de saúde sobreviveu à covid-19. Mas ela expôs pontos críticos a serem superados

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 03h00

Se a covid impactou todas as áreas da vida humana, imagine na saúde. A pandemia não acabou. Mas a luz no fim do túnel aumenta e já se vislumbra o futuro pós-pandêmico. Qual será o legado para a saúde? A questão foi o foco do maior evento sobre saúde do Brasil, o Summit Saúde do Estado, dedicado ao tema “Diagnóstico da Saúde no Futuro”.

No Brasil, assim como a economia, a ciência e a saúde tiveram de enfrentar uma crise dentro da crise fabricada pelo Planalto. Como disse o presidente do Butantan, Dimas Covas, o combate do presidente Jair Bolsonaro à ciência foi um fator crucial para o excesso de óbitos no Brasil. “Estamos vivendo um momento de caça às bruxas, só que aqui é caça à ciência.” Um exemplo é o “tratamento precoce”, “um absurdo inventado no Brasil”.

Felizmente, essa atitude está descolada de quase toda a população. Uma pesquisa divulgada no Summit apontou que 97% dos entrevistados se vacinam regularmente. Agências como a Anvisa e a Conitec trabalharam com independência. As pesquisas avançaram não só em relação à covid, mas em outras áreas. A geneticista Mayana Zatz apresentou uma técnica de “silenciar” genes em órgãos suínos, tornando-os aptos ao transplante em humanos, que pode “revolucionar a medicina”.

Mas mesmo com uma população imune ao obscurantismo do presidente, ele impacta a ciência. Instituições de pesquisa estão sendo asfixiadas por cortes no orçamento. “Em nenhum processo civilizatório você admitiria que alguém chamasse de gasto o que é investir em uma nova geração de pessoas”, afirmou a pesquisadora Margareth Dalcomo. Como disse Armínio Fraga, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, “saúde gera bem-estar, claro, mas também gera mais produtividade”.

O sistema brasileiro é triplamente sobrecarregado, por “doenças infecciosas, doenças crônicas e causas externas, como a violência”. As soluções, segundo Fraga, estão na melhor gestão dos gastos, investimento em tecnologia e mais atendimento primário.

Os gastos do Brasil, 9% do PIB, estão na média global. O problema é a desigualdade: a saúde pública atende três quartos da população. Mas quase metade dos gastos vai para a saúde privada. Tendências demográficas exigirão adaptações. O Brasil está envelhecendo. A expectativa de vida cresce e a população jovem diminui. Fraga estima que os gastos precisarão chegar a 12% ou 13% do PIB.

Sem desviar os olhos do futuro, é preciso manter firmes os pés no presente. A covid deixou sequelas não totalmente dimensionadas não só nos infectados, mas nos hospitais. “O pós-pandemia vai exigir muito do sistema de saúde em termos de tratar aqueles serviços que não foram prestados durante esse período”, lembrou o economista do BID Edson Araújo.

De resto, se 50% da população mundial tomou a primeira dose, nos países de baixa renda são só 3%. Isso pode significar surtos e mutações imprevisíveis. A primeira onda e, sobretudo, a segunda mostraram o quanto o vírus pode surpreender. Tudo somado, porém, há sólidas razões para esperar que o pior tenha ficado para trás. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.