A seca e a liderança do agro

Mesmo com produção menor, o campo deve ser a principal fonte geradora de dólares

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2021 | 03h00

 A pandemia derrubou a produção industrial e a prestação de serviços, no ano passado, mas a atividade no campo continuou em expansão, resistindo aos estragos ocasionados pela covid-19. Mas nem a agropecuária, o setor mais eficiente e mais competitivo da economia brasileira, atravessou sem danos importantes, em 2021, a pior seca em nove decênios. Ainda se espera crescimento, mas, por causa da escassez de chuvas, o Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária deve aumentar 1,7%, em vez dos 2,6% previstos em junho, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Mesmo com menor expansão, a produção das lavouras e das criações ainda fornecerá a base para a robusta exportação do agronegócio, a principal fonte geradora de dólares por meio do comércio. No primeiro semestre deste ano, o agronegócio exportou produtos no valor de US$ 61,49 bilhões, um recorde setorial para o período. Esse valor correspondeu a 45,3% das exportações totais de mercadorias. O saldo comercial do setor, de US$ 53,99 bilhões, compensou com ampla folga o déficit de US$ 17,26 bilhões acumulados por outros segmentos produtivos.

O setor tem sido, há muitos anos, o maior sustentáculo do comércio exterior brasileiro e a principal fonte de superávit comercial – fator essencial, portanto, para a acumulação de reservas em dólares e para a segurança das contas externas. Um país sem reservas, ou com reservas escassas, tem pouca resistência a choques internacionais e pode afundar com rapidez em crises penosas, especialmente se dever muito a credores externos. Quando isso ocorre, o ajuste é muito trabalhoso e o desemprego elevado é uma das consequências.

O Brasil tem bom volume de reservas, acima de US$ 350 bilhões, deve pouco a estrangeiros e as contas externas têm permanecido, há muitos anos, em condições facilmente administráveis, com déficit moderado em transações correntes. Mas o País depende em excesso das exportações do agronegócio e da indústria extrativa, porque a indústria de transformação, excetuados uns poucos segmentos, compete com dificuldade no mercado internacional. O setor de transformação perdeu eficiência, enfraqueceu nos últimos dez anos e está muito abaixo do patamar alcançado antes da recessão de 2015-2016.

O enfraquecimento da indústria reflete erros políticos graves, como a estratégia de criação de campeões nacionais, no período petista, a baixa integração nas cadeias internacionais de produção e a excessiva dependência, tão cômoda quanto perigosa, dos mercados fornecidos pelo Mercosul e, de modo geral, pelas áreas mais acessíveis da América Latina.

Esse quadro impõe enormes e urgentes desafios, mas o presidente Jair Bolsonaro e sua equipe econômica têm-se mostrado incapazes até de entendê-los. O presidente insiste em tratar a agropecuária essencialmente como base de apoio político. Corteja a banda mais atrasada e politicamente mais tosca dos empresários do campo, favorecendo a destruição ambiental, comprometendo internacionalmente a imagem dos bons produtores brasileiros e criando atritos com governos de países importadores, incluído o chinês.

Enquanto isso, a equipe econômica age como se a indústria dependesse principalmente do barateamento da mão de obra e da redução de alguns impostos. Além disso, cuida-se confusamente da questão dos impostos, porque o ministro da Economia parece incapaz de separar objetivos estruturais, típicos de uma séria reforma tributária, dos problemas imediatos das contas públicas.

Políticas de tecnologia, de modernização de processos e de formação de capital humano continuam fora do radar, até porque os Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia foram transformados em paródias do que deveriam ser ou já foram. Não há como esperar desse desgoverno uma economia mais equilibrada, com um setor industrial mais próximo da eficiência da agropecuária. Mais prático é torcer, por enquanto, para o presidente Bolsonaro completar seu mandato sem causar maiores danos ao setor mais competitivo da economia brasileira.

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