A seca e o desperdício de água

Aumento de perdas de água potável mostra inação e desleixo das autoridades

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 03h00

A crise hídrica por que passa o País, que exigirá medidas excepcionais para evitar o racionamento de energia elétrica e de água, torna mais dramático um problema crônico dos sistemas públicos de abastecimento de água. Trata-se das perdas excessivas de água potável. Elas chegam perto de 40% do total de todo o volume captado.

Algum grau de perda na rede de distribuição é praticamente inevitável do ponto de vista técnico. Mas o que se observa no Brasil é o aumento contínuo dos índices de desperdício nos últimos anos, o que denota envelhecimento e ineficiência do sistema e, mais do que isso, o descaso das autoridades responsáveis pela construção, operação e manutenção das redes que levam água às residências dos brasileiros.

Estudo do Instituto Trata Brasil em parceria com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Materiais para Saneamento (Asfamas), e executado pela consultoria GO Associados com base em dados de 2019, constatou que 39,2% de toda a água potável captada no território nacional não chega às residências.

Embora já alto para os padrões mundiais, o índice de perdas de 2015, de 36,7%, era bem menor do que o de quatro anos depois. É a prova de que não só nada de efetivo se fez no período, como, provavelmente, o desleixo na manutenção da rede e no combate ao desperdício e às fraudes se acentuou.

Para dar ideia da perda estimada para 2019, o estudo observa que o volume corresponde a 7,5 mil piscinas olímpicas de água tratada desperdiçadas diariamente. Equivale também a sete vezes o volume produzido pelo Sistema Cantareira, o principal conjunto de captação e tratamento de água que abastece a Grande São Paulo.

Outra comparação mostra como poderia ser melhor o quadro do saneamento básico se o sistema público fosse mais eficiente. As perdas físicas, por causa de vazamentos, representam 60% do volume total desperdiçado e seriam suficientes para abastecer cerca de 63 milhões de brasileiros (cerca de 30% da população) por um ano. É, como lembra o estudo, água mais do que suficiente para abastecer os 35 milhões de brasileiros que não dispõem de água corrente nem para lavar as mãos, como recomenda o protocolo de cuidados contra a covid-19.

É claro que o atendimento da população que ainda não dispõe de água tratada depende não apenas da disponibilidade do produto, mas de muitas outras providências, como a definição de regras e de operadoras responsáveis pelos serviços e a realização de obras. Mas o desperdício, além de mostrar o grau de ineficiência dos sistemas de distribuição, impõe custo para operadoras desses sistemas, que perdem parte de sua receita e, sobretudo, para os consumidores, onerados pela parte restante do desperdício.

Para comparação internacional, o estudo calculou também o Índice de Perdas de Faturamento Total das operadoras, que dá uma visão financeira das perdas em relação ao volume produzido. Por esse índice, no Brasil a perda é de 41%. Países como Estados Unidos e Austrália e metrópoles como Nova York, Toronto, Tóquio e Copenhague registram índices menores do que 15%.

Além de melhorar o desempenho financeiro das operadoras e desonerar os consumidores, o combate eficaz aos desperdícios reduziria a demanda da água da natureza, o que, lembra o estudo, “ajudaria a manter mais cheios os rios e reservatórios espalhados pelo País”.

Neste momento, seria um fato altamente positivo do ponto de vista ambiental e econômico. O País vive uma grande carência de chuvas, pois os índices de precipitação estimados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para este ano são os menores dos últimos 91 anos. Afinal, por não atacar os desperdícios, “as empresas operadoras precisam buscar mais água na natureza, não para atender mais pessoas, mas para compensar a ineficiência”, observa o presidente executivo do Trata Brasil, Édison Carlos. “Em momento de pandemia e pouca chuva, isso cobra um preço altíssimo da sociedade.”

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