A sinuca de bico dos juros

Inflação forte e economia fraca dificultam decisão do Banco Central

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2021 | 03h00

Jogar sinuca será uma habilidade essencial, nestes dois dias, para os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC). Uma nova decisão sobre os juros deve ser anunciada no começo da noite de quarta-feira. Diante da inflação já incômoda e com tendência de alta, será inevitável um aumento da taxa básica, sustenta boa parte do mercado. Se essa for a saída, a obrigação de conter a inflação será cumprida, mas o Tesouro terá custos maiores para rolar a dívida pública e, além disso, será reduzido o estímulo à recuperação econômica. Se os juros ficarem onde estão, em 2% ao ano, esses efeitos serão evitados, mas o risco inflacionário poderá aumentar e a imagem do BC talvez seja afetada. “Situação difícil ou embaraçosa” é o esclarecimento usado no Dicionário Novo Aurélio, onde também aparece a expressão “sinuca de bico”.

Vacinação e pandemia são hoje variáveis indispensáveis a qualquer cálculo econômico ambicioso. Os economistas brasileiros também tiveram de seguir esse caminho, até porque a política nacional de saúde é um fator de muita insegurança. A situação dos membros do Copom é ainda mais complicada, porque deles se exige, agora, habilidade no manejo do taco de bilhar. Além das dificuldades visíveis a olho nu, na experiência do dia a dia, há os dados numéricos de uma recuperação ainda fraca e as projeções pouco animadoras.

O quadro geral é claro. O Brasil encerra mais um trimestre de economia frouxa, com as famílias apertadas, inflação em alta e desemprego muito acima dos padrões internacionais. Milhões de famílias esperam a liberação do novo auxílio emergencial, aprovado pelo Congresso, mas ainda longe do bolso dos consumidores.

Em fevereiro, a inflação oficial acumulada em 12 meses, de 5,20%, quase bateu no limite superior de tolerância (5,25%). A meta para 2021 é de 3,75% e o desvio aceitável, para cima, é de 1,50 ponto. A soma dos dois números dá o limite de tolerância, fixado para o fim do ano, mas presente, sempre, como sinalizador.

O custo da alimentação, uma das principais preocupações das famílias pobres, subiu 0,27% no mês passado, bem menos que em janeiro, quando a variação foi de 1,02%. Mas o alívio é mais aparente que real. Aquele aumento incidiu sobre preços já muito altos. Nos 12 meses até fevereiro o custo de alimentação e bebidas aumentou 15%, mas alguns itens encareceram muito além dessa média. Exemplos: carnes encareceram 29,51%; hortaliças e verduras, 23,30%; e o grupo de cereais (como arroz), leguminosas (como feijão) e oleaginosas, 57,83%.

Dificultando o consumo, a inflação também atrapalha o crescimento econômico. O País mal começou a se recuperar do tombo de 2020, embora tenha entrado em 2021 com algum avanço. Essa percepção é corroborada pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). O indicador de janeiro foi 1,04% mais alto que o de dezembro, mas ficou 0,46% abaixo do nível de um ano antes. Além disso, em 12 meses houve perda acumulada de 4,04% até o primeiro mês deste ano.

Pelo menos houve uma surpresa positiva. O IBC-Br de janeiro deveria ter subido apenas 0,50%, pela mediana das estimativas captadas no mercado pela Agência Estado. Mas isso de nenhum modo altera os problemas já conhecidos.

Em janeiro a produção industrial foi 0,40% maior que a de dezembro e 2% superior à de um ano antes, mas ainda com perda de 4,3% acumulada em 12 meses. O volume de serviços cresceu 0,60% em relação ao de dezembro, mas ficou 4,7% abaixo do anotado em janeiro de 2020, e o resultado de 12 meses foi uma contração de 8,3%. Quanto ao comércio varejista, escorregou por três meses consecutivos, variando -0,10% em novembro, -6,20% em dezembro e -0,20% em janeiro.

As projeções econômicas têm piorado. No mercado, o crescimento econômico estimado para o ano baixou em um mês de 3,43% para 3,23%. A inflação esperada chegou a 4,60%. Em quatro semanas a projeção do déficit primário das contas federais passou de 2,70% para 2,90% do Produto Interno Bruto (PIB). Tudo isso é parte da sinuca enfrentada pelo Copom.

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