A subversão da realidade

As campanhas de desinformação põem em risco a liberdade de cada cidadão

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2020 | 03h00

Em um trecho de seu mais recente livro, Os Engenheiros do Caos, o cientista político e jornalista franco-italiano Giuliano Da Empoli defende que há uma razão bastante lógica e nada irracional, como alguns podem supor, para que as notícias falsas tenham tamanho apelo entre os apoiadores de governantes populistas: elas constituem um “formidável vetor de coesão”. Na obra, Da Empoli cita o postulado de um blogueiro da direita alternativa americana para ilustrar seu ponto. “Qualquer um pode crer na verdade, enquanto acreditar no absurdo é uma real demonstração de lealdade – e que possui um uniforme, e um exército.”

Não por acaso, agências de checagem de fatos surgiram em profusão mundo afora. Seu trabalho se tornou fundamental nos últimos anos em virtude da massificação do acesso às redes sociais e aos aplicativos de mensagens instantâneas, como o WhatsApp, uma revolução nas formas de comunicação pela qual a política não passou incólume. São esses os meios mais propícios para a disseminação de notícias falsas e distorções da verdade pela falta de mediação que lhes é característica e, principalmente, pelo total descompromisso de muitos de seus usuários com a ética e a lei, ao contrário dos jornalistas profissionais.

Em que pese o valoroso trabalho dos fact-checkers, os cidadãos que escolhem acreditar no que desejam, e não necessariamente no que é verdadeiro do ponto de vista factual, dão pouca ou nenhuma importância para o que é real, alçando as notícias falsas à categoria de “verdade alternativa”, de um olhar “possível” para certas questões quando o que o mundo real expõe não lhes convém. Diante disso, como evitar fissuras nos pilares democráticos causados pela subversão da realidade?

O Estado, em parceria com a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), promoveu um webinar para discutir as consequências da falsificação do debate público, tema que se tornou mais premente desde a ascensão do neopopulismo digital. Participaram do evento o já citado Giuliano Da Empoli; Mônica Sodré, diretora executiva da Raps; Daniel Bramatti, editor do Estadão Dados; Monica Steffen, gerente de Políticas Públicas do Facebook no Brasil; o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), autor do Projeto de Lei (PL) 2.630/20 – a chamada Lei das Fake News –; e Demi Getschko, diretor-presidente do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.BR) e colunista do Estado. O evento foi conduzido por Alberto Bombig, editor da Coluna do Estadão.

As redes sociais não inventaram as notícias falsas, mas deram velocidade e alcance inauditos à desinformação. A possibilidade de um número cada vez maior de cidadãos ser bombardeado por mentiras é enorme. Mônica Sodré, da Raps, defende, entre outras medidas, o que chamou de “alfabetização midiática” como meio de formar cidadãos mais capacitados para avaliar o conteúdo que recebem. É um ponto vital, pois, de fato, não há melhor solução para a desinformação do que uma robusta política educacional. Mas isso leva tempo e a falsificação do debate público ameaça a democracia hoje. Impõe-se algum grau de regulação das empresas de tecnologia que criaram as plataformas por meio das quais trafegam as notícias falsas. O grande desafio é encontrar o ponto de equilíbrio entre essa regulação e a existência de um ambiente propício à livre troca de informações. A liberdade está na origem da internet tal como a conhecemos, bem lembrou Demi Getschko.

O senador Alessandro Vieira observou que o PL 2.630/2020 não prevê “censura prévia”. De fato. Mas alguns pontos do texto merecem debate mais aprofundado. Já Monica Steffen afirmou que o Facebook não é contrário à regulação, desde que ela não “silencie o cidadão e iniba a inovação”.

É muito positivo que debates como esse ocorram entre jornalistas, especialistas, empresas e sociedade. Daí virão as soluções para um problema gravíssimo que ameaça o mais valioso bem da democracia: a liberdade de cada cidadão.

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