A surpresa do Enem deste ano

Criado em 1998 como mecanismo de avaliação das competências dos concluintes do ensino médio, o exame teve em 2019 uma das edições mais tranquilas da história

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2019 | 03h00

Criado em 1998 como mecanismo de avaliação das competências dos alunos concluintes do ensino médio e convertido anos mais tarde em processo seletivo para as universidades federais, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2019 foi um dos mais tranquilos de sua existência.

Nos locais de prova, não houve qualquer tumulto nem os estudantes atrasados fizeram gestos folclóricos para as câmaras de TV ao cruzar o portão. Ao contrário, eles próprios afirmaram na redes sociais que, desta vez, "o show foi fraco". Demonstrando maturidade e consciência da importância da prova, que foi realizada em dois domingos, a maioria dos estudantes chegou cedo. Ao todo, participaram do Enem deste ano mais de 5 milhões de inscritos. O único incidente digno de nota, que as autoridades educacionais classificaram como insignificante, foi a divulgação pelo WhatsApp, depois das 16h30, no segundo domingo de provas, de fotos das questões de matemática e ciências da natureza.

Pelas regras do Enem, os inscritos só podiam levar esse caderno para fora da sala de aula a partir das 18 horas. O autor do vazamento - um rapaz de 18 anos - foi rapidamente identificado e será acionado judicialmente, mas sua irresponsabilidade não comprometeu a realização do exame. Segundo balanço do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão responsável pela aplicação das provas e que já teve três presidentes em 2019, dos mais de 5 milhões de inscritos, apenas 371 foram desclassificados por se recusar a se submeter ao controle biométrico, por uso indevido de equipamentos eletrônicos e por não ter seguido orientações dos fiscais. Estatisticamente, o número de desclassificados é irrelevante. A taxa de abstenção do segundo dia de prova, de 27,10%, foi a menor da história do Enem.

Além disso, o Enem de 2019, cujos resultados individuais serão divulgados em janeiro de 2020, a partir de consulta com base no Cadastro de Pessoas Físicas e senha, não suscitou polêmicas por causa das questões e do tema da dissertação - "democratização do acesso ao cinema no Brasil". Apesar da preocupação dos professores da rede escolar e dos cursinhos preparatórios após as declarações do presidente Jair Bolsonaro e de sua equipe de que modificariam o estilo das provas, proibindo questões com "teor ofensivo a tradições e costumes nacionais", o exame foi muito bem recebido. Surpreendentemente, até mesmo questões com foco em direitos humanos foram mantidas. "A boa notícia é que não tivemos nenhuma surpresa. A prova manteve o padrão de cobrança e de temas dos últimos anos", afirmou Gilberto Alvarez, diretor do Cursinho da Poli, depois de elogiar a diminuição do número de questões de baixa complexidade e o aumento do número de perguntas que exigem leitura crítica e apurada.

Apesar de as provas terem sido consideradas trabalhosas para serem respondidas no período de apenas cinco horas pelos estudantes, as perguntas - formuladas por professores de universidades federais convocados para esse trabalho - não foram consideradas difíceis, tendo sido elogiadas pelos especialistas nas diferentes matérias do ensino médio. Também elogiaram o fato de que os padrões de cobrança das últimas edições do Enem foram mantidos. Segundo os professores, por seu caráter mais "conteudista" em algumas áreas do conhecimento, quando comparado com as provas dos anos anteriores, o Enem de 2019 se aproximou do modelo seletivo adotado pela Fuvest, que está há décadas em vigor na USP, a maior e mais importante universidade brasileira.

A tranquilidade do Enem de 2019 foi tanta que, nas redes de ensino médio e nos cursinhos, professores perguntam, considerando as idas e vindas do governo Bolsonaro na área educacional, se faltou tempo para o Ministério da Educação (MEC) mudar a estrutura da prova ou se, surpreendentemente, prevaleceu o bom senso. Independentemente da resposta, o MEC só terá a ganhar se mantiver, em 2020, o padrão que adotou no Enem de 2019.

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