A tecnologia contra o vírus

Ela permite que continuem as relações socioeconômicas e pode salvar vidas no front

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo

20 de abril de 2020 | 03h00

Além de confrontar a humanidade, em nível pessoal e civilizacional, um dos efeitos da pandemia é transportar o futuro de um horizonte longínquo para o aqui e agora. Com o confinamento generalizado, a sociedade está sofrendo um choque de digitalização. Mas enquanto o mundo do trabalho e o do lazer têm tempo para se adaptar a esse futuro tornado prematuramente contemporâneo pela força de um vírus, aqueles que combatem este vírus com tecnologias como Inteligência Artificial (IA), robótica e Big Data precisam acelerar dramaticamente seus procedimentos para enfrentar a velocidade da sua disseminação. Afinal, além de permitir a continuidade do trabalho e das relações sociais, estas tecnologias podem fazer a diferença entre a vida e a morte no front de batalha.

Segundo a revista especializada em saúde STAT, a IA está sendo experimentada pelas redes hospitalares para pré-examinar e instruir possíveis infectados; identificar pacientes de alto risco para que os médicos possam se antecipar proativamente; examinar profissionais de saúde na linha de frente; detectar a covid-19 e diferenciá-la de outras doenças respiratórias; prever quais quadros irão se deteriorar; rastrear leitos e equipamentos; acompanhar os pacientes fora do hospital; detectar a distância altas temperaturas e impedir que pessoas doentes entrem em espaços públicos; e avaliar respostas a tratamentos experimentais.

Além disso, a IA pode acelerar a criação de remédios e vacinas, prever a evolução da epidemia, mensurar o impacto de políticas públicas e aprimorá-las para nos defender contra os surtos futuros que com toda probabilidade virão.

Um rastreamento robusto do vírus é decisivo para frear os primeiros estágios de um surto e será decisivo para as estratégias de transição da quarentena para as atividades normais. O procedimento tradicional de rastrear e notificar os contatos de um infectado é lento, mas pode ser feito instantaneamente através da localização e dos dados dos celulares e de aplicativos para notificação de resultados positivos. Isso ajudou países como Coreia do Sul, Taiwan e Cingapura.

Em São Paulo, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas e a Telefônica estão implementando o mapeamento dos padrões de deslocamento da população por meio de dados anônimos dos dispositivos móveis. Isso ajudará o governo a elaborar estratégias para conter aglomerações (por exemplo, em terminais de transporte) e programar alertas, evacuações e quarentenas em zonas de risco.

A Câmara dos Deputados aprovou em caráter emergencial o uso da telemedicina enquanto durar a crise. Uma das estratégias capitais é antecipar a triagem dos pacientes antes que cheguem às centrais hospitalares. O atendimento a distância pode diminuir o fluxo de pacientes nos hospitais, reduzindo o risco de contágio, e permitir que médicos em quarentena cliniquem remotamente.

Evidentemente a tecnologia não é uma panaceia. Diagnósticos e prognósticos automatizados ainda são um substituto pobre para um exame presencial detalhado. As ferramentas disponibilizadas aos profissionais de saúde e gestores têm de ser testadas para minimizar os riscos característicos de novos procedimentos. E os rastreamentos em massa impõem o dilema entre a majoração da eficácia e a redução da privacidade. Nas democracias ocidentais os sistemas podem ser implementados com o consentimento dos usuários ou por meio de legislações de exceção para situações de calamidade.

O fato é que em tempos excepcionais os processos regulatórios também precisam avançar em condições excepcionais. Como tudo o mais nesta pandemia, a chave está na agilidade. Assim como os tecnólogos estão acelerando seus processos de criação e produção de novas máquinas, as agências reguladoras, autoridades políticas e sociedade civil precisarão acelerar o processo de deliberação sobre o que é ou não aceitável. Como em todo avanço científico e tecnológico, as soluções virão por sucessivas tentativas e erros. A única atitude inaceitável é não tentar.

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