A vez da esquerda na Colômbia

Sucesso de Petro dependerá de moderação e consensos que preservem a estabilidade política e o crescimento econômico

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2022 | 03h00

Pela primeira vez em 203 anos de vida republicana, a Colômbia elegeu um presidente de esquerda. O primeiro turno já marcara a derrota do establishment político. O segundo sacramentou a derrota do conservadorismo. Os 11,2 milhões de votos para Gustavo Petro sinalizam a fome por mudanças, mas os 10,5 milhões de votos para o populista de direita Rodolfo Hernández mostram que elas dependerão da capacidade do próprio Petro de mudar, moderando seu radicalismo e compondo compromissos.

O segundo turno, com a maior taxa de participação desde 1998, confirmou a saúde da democracia colombiana. Os temores de violência não se concretizaram. Hernández, o incumbente Iván Duque e outros opositores felicitaram prontamente o novo presidente.

Apesar de 50 anos de guerra contra milícias marxistas e narcotraficantes, a Colômbia tem uma história notável de estabilidade política e de crescimento econômico construídos por governos liberais e conservadores. Contudo, a insatisfação com o desemprego, a desigualdade, a precariedade dos serviços públicos e a corrupção – agravada na pandemia – chegou a um ponto de saturação.

Economista e ex-guerrilheiro, Petro, que foi prefeito de Bogotá e congressista, concorreu pela terceira vez à presidência. Seus apoiadores esperam que ele lidere a mudança de um país dominado por uma elite estreita para um Estado de bem-estar social inclusivo e moderno. Seus oponentes temem que seu radicalismo destrua a paz e o crescimento dos últimos anos.

Algumas propostas, seja por razões ideológicas – como a de banir novas explorações de petróleo, que respondem por metade das receitas da exportação colombiana –, seja por razões demagógicas – como a de ensino superior universalmente gratuito ou empregos públicos para todos os desempregados –, mostram que os riscos de desestabilização econômica são reais.

Politicamente, Petro parece apegado a vícios sectários, como a antipatia pelos EUA ou a simpatia pelo chavismo. Ele tem a reputação de ser um administrador com quem é difícil trabalhar. Quando prefeito de Bogotá, cerca de 60 membros do governo se demitiram ou foram exonerados, e ele chegou a ser suspenso por suspeitas de improbidade. Nas eleições, atacou as autoridades eleitorais, suscitando temores de que não aceitaria uma derrota.

O teste para o seu amadurecimento político virá nos próximos dias, com a composição de seu gabinete. A capacidade de virar a página de uma trajetória marcada por críticas radicais e de construir consensos em uma sociedade dividida será essencial para serenar o mercado e alicerçar sua governabilidade. O Congresso está fragmentado e sua coalizão conquistou só 15% das cadeiras. Os sinais de esperança vieram de seu primeiro discurso: “A mudança não é para nos vingar nem construir mais ódios”.

As urnas foram claras: a Colômbia precisa de mudanças, mas sem rupturas; precisa consolidar direitos sociais, mas isso dependerá da continuidade da estabilidade política e do crescimento econômico. Em linguagem popular, Petro terá o desafio de jogar fora a água do banho sem sacrificar o bebê.

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