A volta do pesadelo da pólio

Com baixa cobertura de vacinação, doença erradicada em 1989 ameaça voltar

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2022 | 03h05

É lamentável, para dizer o mínimo, que doenças erradicadas há décadas no País possam reaparecer por causa de baixos índices de vacinação. Infelizmente, a propagação de notícias falsas sobre efeitos colaterais dos imunizantes, assim como a ilusão de que algumas doenças já não existiriam mais, entre outros fatores, têm levado à diminuição da cobertura vacinal. A tendência foi agravada durante a pandemia de covid-19, quando muitas famílias deixaram de ir aos postos de saúde. Para piorar, a inoperância do Ministério da Saúde, subordinado ao negacionismo irresponsável do presidente Jair Bolsonaro, só aumenta o desafio.

Sinais de alerta não param de chegar. Como mostrou o Estadão, o Brasil tem hoje mais de 500 mil crianças não vacinadas contra a poliomielite, doença que pode provocar atrofias musculares e paralisia nos casos mais graves. Erradicada do País em 1989, após uma gigantesca mobilização nacional para vacinar bebês e crianças, a pólio voltou a ser uma ameaça. O índice brasileiro de vacinação, que já foi de 95%, está em 67%, um dos mais baixos da história. Considerando o ciclo completo de vacinação, que inclui doses extras orais, o índice cai para 53%. 

Tamanha diminuição na cobertura vacinal levou a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) a incluir o Brasil na lista de oito países latino-americanos com alto risco de reaparecimento da doença. A América Latina não registra casos da enfermidade desde 1994, e a Opas tenta evitar um retrocesso. O grupo de países em alerta é encabeçado por Haiti e Bolívia, cuja situação é ainda mais preocupante, classificada como de altíssimo risco − o que só reforça o receio de contágio em território brasileiro, dada a vizinhança com a Bolívia, país com o qual o Brasil tem extensa fronteira terrestre. Os demais são Equador, Guatemala, República Dominicana, Suriname e Venezuela. 

Entrevistado pelo Estadão, o pesquisador Akira Homma, ex-diretor de Bio-Manguinhos, da Fiocruz, afirmou que os baixos índices de vacinação abrem caminho para a volta da poliomielite. Pior: uma vez retornando ao País, o vírus causador da doença poderia circular livremente entre a parcela da população não vacinada, elevando o risco de mutações. Nas últimas semanas, segundo ele, dois casos importados de poliomielite foram detectados no Malawi (África) e em Israel (Oriente Médio). No mundo, a enfermidade é endêmica no Afeganistão e no Paquistão.

Homma, que atuou na erradicação da pólio no Brasil, na década de 1980, aponta várias causas para a diminuição das taxas de vacinação, o que tem causado problemas na prevenção de doenças como sarampo, caxumba e rubéola. No caso da pólio, o pesquisador diz que “falta informar melhor a população, (...) convocar as pessoas a se vacinarem”. E acrescenta: “Essa informação transparente deixou de existir”. Em outras palavras, Homma aponta questões centrais para qualquer política pública, ainda mais na área da saúde. 

Ora, se há algo que o governo Bolsonaro tem feito com denodo é ignorar sua obrigação de disseminar informações essenciais para que a população entenda a importância da vacinação. Diante disso, as perspectivas, no que diz respeito à pólio e a várias outras doenças, não são animadoras.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.