A volta dos investimentos

Reformas importantes e as privatizações contribuíram para o País ficar mais atraente

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2020 | 03h00

Num ano em que os sinais mais claros de recuperação da economia demoraram para surgir, e o fizeram de maneira muito discreta, o Brasil conseguiu recuperar o quarto lugar entre os países que mais recebem investimentos diretos estrangeiros (IDE), isto é, dinheiro destinado para o setor produtivo do País, na forma de novos investimentos e participações em empresas e projetos. O Investment Trends Monitor que acaba de ser divulgado pela Agência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad) mostra que, em 2019, o Brasil absorveu US$ 75 bilhões em IDE, 25% mais do que os US$ 60 bilhões recebidos no ano anterior. É uma clara indicação de que, a despeito das dificuldades que ainda enfrenta para superar os efeitos da recessão de fins de 2014 até o início de 2017 – herança dos desmandos do governo petista de Dilma Rousseff –, a economia brasileira continua a atrair o interesse das empresas que operam em escala global e dos investidores estrangeiros.

Reformas importantes para a recuperação das contas públicas aprovadas ainda no governo Michel Temer começaram a mudar o ambiente para os negócios no País. O início do programa de privatizações do governo Jair Bolsonaro contribuiu de maneira decisiva para o maior afluxo de investimentos estrangeiros para o Brasil no ano passado, avalia o relatório da Unctad.

O ano em curso, do ponto de vista das privatizações, pode ser melhor, se se confirmar boa parte das projeções do governo, o que sinaliza um desempenho ainda melhor do País no próximo relatório da Unctad. Há dias, o secretário de Desestatização, Desinvestimento e Mercados do Ministério da Economia, Salim Mattar, anunciou que a meta do governo é atingir R$ 150 bilhões em privatização e vendas de ativos em 2020. É um valor cerca de 50% maior do que o obtido no ano passado.

Mas ainda há muita coisa a esclarecer sobre essa meta. Não há uma projeção de valor a ser alcançado com cada empresa ou participação acionária a ser transferida para o setor privado. Mesmo que seja estabelecido pelo governo o valor previsto de cada operação, será preciso verificar na prática se o investidor privado está interessado no ativo oferecido e qual preço está disposto a pagar por ele.

Quanto ao relatório da Unctad, observa-se que, no total, o fluxo de investimentos diretos estrangeiros no ano passado ficou em US$ 1,39 trilhões, cerca de 1% menos do que o total contabilizado em 2018. É, diz a organização vinculada à ONU, resultado do fraco desempenho da economia global e das incertezas políticas, incluindo tensões comerciais entre as principais economias do planeta, que reduziram a confiança dos investidores. Nesse ano ruim para o fluxo de investimentos estrangeiros, o Brasil conseguiu um ganho expressivo no volume de IDE que absorveu.

No ano passado, três importantes centros de absorção de investimentos estrangeiros enfrentaram dificuldades específicas. Hong Kong, que foi o terceiro maior receptor de IDE em 2018, viu o fluxo de investimentos se reduzir em cerca de 50% ( para US$ 55 bilhões), por causa da crise política ligada a seu relacionamento com o governo da China. Um grande desinvestimento fez o ingresso de IDE na Holanda cair 98% (de US$ 114 bilhões para US$ 1,9 bilhão no ano passado). Por fim, os investimentos estrangeiros no Reino Unido caíram de US$ 65 bilhões em 2018 para US$ 61 bilhões no ano passado, em boa parte por causa das incertezas com relação às condições do Brexit, isto é, de sua retirada da União Europeia.

Com isso, o Brasil ficou atrás apenas dos Estados Unidos (IDE de US$ 254 bilhões em 2019, 1% menos do que em 2018), China (US$ 140 bilhões, praticamente o mesmo resultado do ano anterior) e Cingapura (cujo volume saltou 41%, de US$ 78 bilhões para US$ 110 bilhões).

Na América Latina, o fluxo aumentou 16% em 2019, graças ao desempenho do Brasil, Chile, Peru e Colômbia. Argentina e Equador receberam menos investimentos estrangeiros.

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