Abaixo da linha da miséria

Ação na Cracolândia exige combinar repressão ao tráfico e assistência médica

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

29 de fevereiro de 2020 | 03h00

Levantamento da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal Paulista sobre os frequentadores da Cracolândia em São Paulo evidencia uma tragédia a um tempo complexa, crônica e aguda para a qual não há soluções milagrosas de algum deus ex-machina. Ela só será resolvida, ou ao menos mitigada, por uma combinação persistente de repressão ao tráfico e de assistência médica e social.

O censo dos últimos três anos mostra a resiliência da Cracolândia. A sua população, que em 2016 era de 709 dependentes, aumentou em 2017 para 1.861. No mesmo ano, após uma operação ostensiva de dispersão e reurbanização para “acabar” com a Cracolândia, como disse o então prefeito João Doria (PSDB), a população chegou a cair para 414 pessoas, mas voltou a subir para 1.680.

Em média cada toxicômano gasta por dia com o crack R$ 192,5, mais que uma cesta básica. Além da mendicância, 45% pagam o vício com roubos e furtos e 35%, com prostituição. O tráfico arrecada quase R$ 10 milhões por mês, mais que o aplicado pela subprefeitura da Sé (R$ 7,3 milhões em média) na Cracolândia. O papel do crime organizado vai além do mercado de entorpecentes. Em 2016, a Operação Marrocos revelou relações promíscuas entre o Primeiro Comando da Capital, que domina a região, e o Movimento dos Sem-Teto, um dos interlocutores privilegiados do então prefeito Fernando Haddad (PT). Na gestão Haddad, além disso, vicejou o limitado programa De Braços Abertos, que buscava a reabilitação com remuneração e alojamento precários, mas negligenciava a internação voluntária ou compulsória, um pilar do programa estadual Recomeço.

Dos que moram na Cracolândia, 78% viviam antes em suas casas ou com familiares e 95% têm alguma instrução. Como apontou a coordenadora do estudo, Clarice Madruga, à Folha de S.Paulo, isso quebra o mito de que a degradação da Cracolândia é consequência direta das condições sociais. “O frequentador não é, em sua maioria, um ex-menino de rua que caiu ali”, diz ela. “O que existe é uma doença que faz com que alguém inserido na sociedade caia na rua.” Um dos gatilhos é o consumo precoce de álcool e drogas. Em média, os adictos começam a beber aos 11 anos e a fumar maconha aos 15.

Em três anos a proporção de mulheres subiu de 16,8% para 23,7%, e a de transgêneros, de 3,7% para 7,5%. São grupos mais vulneráveis. Se o contingente de homens que sofreu perda de consciência pelo crack – um indicador de alto risco – é de 29,3%, o de transgêneros é de 44,4% e o de mulheres, de 46,3%. Enquanto para os homens a média de indicadores de distúrbios psíquicos graves – como automutilação, psicose, ideação ou atuação suicida – é de 40%, para as mulheres é de 63%. De resto, a dependência das mulheres impacta mais diretamente seus filhos. Felizmente, a proporção das dependentes que usam contraceptivos aumentou e a de gestantes diminuiu.

Se a principal motivação apontada por aqueles que entram neste matadouro alucinógeno é a disponibilidade da droga, a motivação para sair não é se livrar dela, mas sim um fim maior, para o qual a desintoxicação é um meio, principalmente o trabalho (para 44% dos egressos) e o amparo familiar (para 33%). Numa escala de 0 a 10, 1 em 3 toxicômanos dá 9 ou 10 para seu desejo de parar e procurar ajuda. É suficiente esperança para mobilizar um êxodo desse inferno. Mas ele não virá de intervenções bombásticas, com resultados ruidosos, mas passageiros – como na gestão Doria –, nem da leniência com usuários e traficantes mal disfarçada por um humanitarismo quimérico e refratário às ações extremas que esta miséria moral, psíquica e física exige – como na gestão Haddad. Parafraseando um adágio cristão, é preciso amar o viciado e odiar o vício; punir o delinquente e acolher o dependente – o fato de que na Cracolândia ambos sejam com frequência a mesma pessoa só torna a distinção mais importante, não menos.

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