Acabou o impulso da retomada em V

A recuperação talvez seja suficiente para compensar o recuo na crise de 2020, mas os sinais indicam perda de vigor

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2021 | 03h00

Com novo recuo de 0,7% em outubro, a economia brasileira voltou a perder impulso depois de ter avançado 4,2% em 12 meses, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Mantido esse ritmo até o fim do ano, o País mal terá compensado a perda de 4,1% contabilizada em 2020. O ministro da Economia, Paulo Guedes, poderá celebrar a prometida recuperação em V, mas as perspectivas do próximo ano continuam muito ruins. Projeções apontam crescimento na faixa de zero a 0,5% e inflação acima de 5%. Confirmada a previsão, a alta de preços ao consumidor terá superado pela segunda vez, em 2022, o limite de tolerância (5,25% em 2021 e 5% no ano seguinte). 

A estagnação da economia nacional, depois de um ano de retomada medíocre, é apontada também pelo Monitor do PIB – FGV, a mais detalhada prévia mensal do Produto Interno Bruto. Outra prévia, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), havia indicado um recuo mensal de 0,4% em outubro. Apesar das diferenças entre os dois cálculos, ambos descrevem um cenário de baixo dinamismo. Outros indicadores, como a inflação na casa de 10% ao ano e o desemprego em torno de 12% da força de trabalho, adicionam componentes a um quadro de quase paralisia e de graves desajustes com elevados custos sociais.

Durante oito meses, de fevereiro a setembro, o PIB foi sempre maior que o de um ano antes. Em outubro, foi zero a variação mostrada por esse tipo de comparação. O mesmo confronto, no entanto, apontou recuo de 2,1% na produção da indústria geral e perda de 9% no total fabricado pela indústria de transformação. Passada a recuperação inicial, depois do tombo no primeiro semestre de 2020, a indústria voltou a derrapar. Iniciado antes da recessão de 2015-2016, o declínio do setor agravou-se a partir de 2019.

Seria um erro perigoso atribuir à crise econômica de 2020, ocasionada pela pandemia, as dificuldades do setor industrial. A história da indústria brasileira nos últimos dez anos foi determinada em grande parte por decisões tomadas no período petista. A trajetória poderia ter mudado, se o poder federal, nos últimos três anos, se tivesse mostrado capaz de identificar problemas e de propor uma estratégia de modernização e de retomada do crescimento.

As pautas do presidente e de seu ministro da Economia nunca incluíram, no entanto, metas de modernização e de retomada de um crescimento econômico seguro. Ninguém, na equipe federal, parece ter identificado como problema o enfraquecimento da indústria, principalmente do ramo de transformação. O presidente jamais se desviou, pelo menos de forma perceptível, da preocupação com seus interesses particulares. Quanto ao ministro da Economia, nunca demonstrou uma clara percepção do funcionamento do sistema produtivo, da vida econômica real. Nem por isso empresários industriais deixam de receber e de aplaudir o presidente e o ministro, em eventos de suas entidades de classe. Conhecidos os números atuais e a desastrosa história recente da indústria, falta descobrir os motivos dos aplausos. 

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