Agro forte em tempos de crise

Exportações também crescem, apesar de grosserias contra países importadores

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2020 | 03h00

Boa comida, bilhões de dólares e notícias positivas continuam brotando no campo, apesar da pandemia, da recessão, dos tropeços do governo e do horror do presidente à tarefa de governar. O Brasil deve produzir 250,9 milhões de toneladas de grãos nesta temporada, 3,6% mais que o total colhido na safra 2018/19, segundo a nova estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura. As safras de arroz, feijão, milho, soja, trigo, amendoim, algodão e outros produtos de menor volume devem superar as do ano passado, de acordo com o levantamento e com as projeções divulgadas recentemente.

Produção e estoques devem garantir um abastecimento sem problemas. Ao mesmo tempo, os principais produtos exportáveis, incluídos soja e milho, devem continuar proporcionando dezenas de bilhões de dólares de superávit comercial – condição indispensável à segurança externa da economia brasileira.

Sempre bem-vindos, os números animadores da agricultura têm especial importância nesta fase muito ruim para a maior parte da economia brasileira. Dados oficiais já haviam mostrado grandes perdas na indústria, no varejo e nos serviços em março, quando o País sofria os primeiros impactos da crise associada ao surto do novo coronavírus. Os informes de abril devem apontar uma grande piora nesses três conjuntos de atividades, com efeitos dramáticos no emprego e na renda de milhões de famílias. Mais uma vez, como tem ocorrido com frequência há alguns anos, o agronegócio deve garantir alguma luz num cenário com muitas sombras.

A safra de verão, colhida quase integralmente, foi prejudicada por problemas do tempo em algumas áreas, com perda de produtividade nas lavouras de soja e milho, mas, apesar disso, a produção de soja, estimada em 120,3 milhões de toneladas, deve ser 4,6% maior que a da temporada anterior. A de feijão, de 1,08 milhão de toneladas, superou por 8,9% a de um ano antes. Algumas culturas, como feijão e milho, têm duas ou mesmo três safras em cada ano agrícola. As da segunda safra já estão com o plantio adiantado.

As exportações continuam gerando uma boa receita, apesar do quadro geralmente ruim do comércio internacional. De janeiro a abril as vendas externas do agronegócio, registradas pelos critérios do Ministério da Economia, foram 17,5% maiores que as de um ano antes, pela média diária, e representaram 22,9% das exportações totais do Brasil, estimadas em US$ 67,83 bilhões no balanço preliminar. Um ano antes essa participação havia sido de 18,7%.

O avanço do agro tem sido especialmente importante porque compensa em parte o recuo de outros setores. O valor total das exportações brasileiras foi 3,7% menor que o de janeiro-abril de 2019. O superávit geral de US$ 12,26 bilhões acumulado em quatro meses foi 16,4% inferior ao de um ano antes, mas continuou sustentado pelo agronegócio.

A abertura de mercados contribuiu para o aumento das vendas. A diplomacia comercial do Ministério da Agricultura continua facilitando a preservação de mercados e a ampliação das oportunidades. A presença brasileira aumentou na China, o maior mercado importador. O total vendido cresceu 11,3%. Os principais destaques foram as exportações de soja (+28,5%), de carne bovina (+85,9%), de carne suína (+153,5%) e de algodão em bruto (+79%).

A expansão das vendas para o mercado chinês ocorreu apesar de duas circunstâncias desfavoráveis, a epidemia de coronavírus e as grosserias cometidas contra a China pelo deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República, e pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub. O ministro de Relações Exteriores e o presidente Jair Bolsonaro também têm atrapalhado o relacionamento com grandes mercados, como a China e países muçulmanos. Além disso, erros graves do governo – na política ambiental, por exemplo – têm favorecido grupos interessados em criar ou ampliar medidas protecionistas na Europa. A agricultura brasileira estaria mais segura se tivesse de enfrentar apenas secas, inundações, pragas e crises globais.

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