Agronegócio e infraestrutura

Apesar do vigor do agronegócio, infraestrutura é apontada como fator limitador

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 03h00

Nas últimas décadas a agricultura brasileira tem mostrado um desempenho vigoroso. O setor desenvolveu um padrão moderno e intensivo em tecnologia, graças à sinergia entre boas políticas agrícolas, como a política de crédito rural, a disposição do produtor rural de buscar melhores resultados e pesquisas de ponta conduzidas por universidades, cooperativas e entidades como a Embrapa. Contudo, um fator limitador do desempenho do agronegócio foi a infraestrutura. O fato foi evidenciado por um estudo desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que buscou explorar a relação entre o Produto Interno Bruto (PIB) do setor agrícola, o crédito rural e o investimento em infraestrutura.

Entre 1999 e 2015, período de amostragem da pesquisa, a ascensão do PIB agropecuário foi contínua e alavancou a demanda por crédito e por investimentos públicos em infraestrutura. Ainda assim, o investimento público em infraestrutura se mostrou sazonal, decrescendo em dois momentos (de 1999 a 2003 e de 2011 a 2015). São sintomas de um déficit na infraestrutura que tem freado o desempenho do setor.

“A agricultura brasileira apresenta um índice de desenvolvimento muito bom dentro da porteira – isto é, apresenta índices elevados de produtividade e eficiência”, diz a pesquisa, “mas, fora da porteira, encontra entraves que prejudicam muito sua competitividade.” Dentre eles, a ineficiência da matriz de transportes é o mais significativo. Com isso, o frete acaba por ter um peso desproporcional no preço final do produto para o mercado interno e, sobretudo, externo.

Um complicador, de acordo com a pesquisa, é que parece haver uma concorrência de recursos entre o crédito rural e o financiamento dos investimentos públicos em infraestrutura, com efeitos negativos para a produção agrícola. Políticas e regulações que evitassem ou mitigassem essa competição poderiam dar ainda mais impulso à agricultura. “O agronegócio é um setor pujante e que tem criado ciclos de crescimento próprios, independentemente dos incentivos públicos”, disse Márcio Bruno Ribeiro, um dos pesquisadores. “Os dados mostram que ele poderia ter uma capacidade de expansão ainda maior se houvesse políticas públicas de longo prazo.”

Segundo outra responsável pelo estudo, Júnia Cristina Peres, “a pesquisa revela uma limitação nas receitas para os investimentos públicos em infraestrutura do setor agrícola. Entretanto, observa-se uma inversão na relação de dependência, sendo que muitos dos incentivos privados têm alavancado o setor e, consequentemente, o acesso facilitado ao crédito rural”.

Essas constatações demandam a atenção dos gestores públicos, não só por evidenciarem que o agronegócio tem um potencial de aceleração travado, mas porque o País possui ainda uma área potencialmente agricultável considerável. Na última geração, a agronomia nacional tem conquistado grandes inovações nos sistemas de rotação, permitindo que áreas de pastagem de baixa produtividade das forragens sejam integradas aos sistemas de grãos. Estima-se que nos últimos dez anos cerca de 80% do aumento da área cultivada com lavouras tenha se dado em antigas áreas de pasto.

Ao mesmo tempo, a qualidade e o controle dos processos produtivos têm se aprimorado sensivelmente, no compasso das inovações das indústrias processadoras, assim como dos supermercados, que respondem por sua vez à maior exigência dos consumidores. Essa qualificação e a consequente certificação dos produtos agrícolas são fatores essenciais para a expansão no comércio internacional.

Mas todos os elos da cadeia têm sido prejudicados pela precária infraestrutura de transporte, componente substancial nos custos das commodities. “O desempenho do setor agropecuário pode contribuir para um ciclo virtuoso de crescimento, com a indução de financiamentos e investimentos em infraestrutura”, conclui a pesquisa. “Contudo, também é importante que não ocorra uma competição entre esses dois setores por recursos financeiros.” 

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