Ainda longe da vacinação em massa

Há um risco nada desprezível de que uma campanha massiva só ocorra ao longo de 2022.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2021 | 03h00

O Brasil tem 212 milhões de habitantes. Epidemiologistas calculam que entre 180 e 190 milhões precisarão ser imunizados contra a covid-19 para que a cobertura vacinal atinja o patamar necessário para frear a disseminação do novo coronavírus no País.

O Sistema Único de Saúde (SUS) tem capacidade e experiência para vacinar milhões de brasileiros rapidamente em todo o território nacional. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) é referência em vacinação massiva. Só existe um problema, e muito grave: não há vacinas na quantidade que o Brasil precisa.

Hoje, o País só conta com os 6 milhões de doses da Coronavac aprovadas para uso emergencial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em que pese a louvável diligência do governo de São Paulo, sem a qual nem isso haveria, é uma quantidade pequena, suficiente apenas para vacinar um punhado de pessoas em cerimônias oficiais Brasil afora e uma ínfima parcela dos grupos prioritários, considerando que cada pessoa deve receber duas doses da vacina. Até amanhã, o Instituto Butantan espera obter a aprovação da Anvisa para mais um lote de 4,8 milhões de doses da Coronavac, desde, é claro, que haja Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) em volume suficiente. É muito provável que consiga, mas ainda é pouco.

A Anvisa também autorizou o uso emergencial de um lote de 2 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca, produzida pelo Serum Institute, na Índia. Mas, a despeito do estardalhaço com que o governo federal anunciou a chegada deste carregamento ao País no domingo passado, não houve a entrega. Prevê-se que estas vacinas cheguem ao Brasil no fim de semana.

No futuro, tanto o Butantan como a Fiocruz vão produzir as duas vacinas no Brasil sem depender do IFA que vem da China, mas ainda não está claro quando os laboratórios terão esta independência.

Contando com os insumos externos, o Butantan prevê entregar 46 milhões de doses da Coronavac ao Ministério da Saúde até março. Com a conclusão da obra de sua nova fábrica, no fim do ano, o instituto paulista prevê fabricar 100 milhões de doses por ano a partir de 2022. A Fiocruz planeja entregar um total de 100,4 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca até junho e mais 110 milhões de doses até o final de 2021. Mas tais prazos e quantidades podem estar comprometidos. A China suspendeu o envio do IFA ao Brasil sob alegação de “entraves burocráticos” e “alta demanda”.

Como se vê, há risco nada desprezível de que uma campanha massiva de vacinação da população só vai ocorrer ao longo de 2022.

É evidente que é enorme a demanda por IFA no mundo todo. Mas a posição desfavorável do País nesta fila pode estar relacionada ao comportamento hostil, quase patológico, do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em relação à China e às omissões do presidente Bolsonaro. Esforços de reaproximação com os chineses, a fim de destravar o envio do IFA, estão sendo feitos, principalmente pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Oxalá surtam efeito.

A insegurança em relação à quantidade de vacinas de que o País poderá dispor neste ano revela o quão pernicioso foi o comportamento desleixado de Bolsonaro em relação a tema tão vital. E diz muito sobre sua desastrosa aposta em uma só vacina, a Oxford/AstraZeneca, da qual, repita-se, ainda não há uma dose sequer pronta para aplicação no País.

Bolsonaro tem de começar a trabalhar de uma vez por todas para que todos os cidadãos sejam vacinados o mais rápido possível. A Nação está farta de tanto descaso e incompetência, quando não perversidade. Mais de mil brasileiros morrem de covid-19 todos os dias e só a vacinação em massa é capaz de frear este morticínio.

É urgente buscar acordos com outros fabricantes para trazer ao País tantas doses de vacinas quanto for possível. Não se sabe por quanto tempo cada vacina oferece proteção contra o vírus, milhões de doses serão necessárias.

Bolsonaro também precisa abandonar a demagogia e permitir que empresas privadas adquiram vacinas. Toda ajuda é bem-vinda nesta hora grave.

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