Ainda resta lucidez no governo

Com ações de combate à covid-19, servidores públicos resgatam esperança de que Executivo não foi completamente loteado por Bolsonaro

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 03h00

A insensatez de Jair Bolsonaro ao tratar da pandemia de covid-19 faz com que a sociedade se questione até quando o governo vai fingir que o avanço de casos e o crescimento no número de mortes não é problema do Executivo. Por outro lado, reações como a da diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que aprovou a vacinação de crianças contra o novo coronavírus a despeito da intimidação liderada pelo presidente, dão esperança de que o setor público não foi completamente loteado entre os amigos da família Bolsonaro. A médica Rosana Leite, que comanda a Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 do Ministério da Saúde, é mais uma servidora que se une a esse esforço.

Em entrevista ao Valor, a secretária demonstrou lucidez, uma qualidade rara na gestão Bolsonaro. Ela manifestou preocupação com a queda no uso de máscaras e a baixa procura pela dose de reforço por parte da população – fundamental para conter o aumento de casos graves relacionados à variante Ômicron. “Nós já distribuímos 40 milhões de doses de reforço e só 15 milhões foram aplicadas até agora”, disse, alarmada. “A gente espera que a população contribua. Percebemos muitas pessoas não usando máscaras.”

Na avaliação de Rosane Leite, a estratégia de combate à covid-19 em 2022 deve associar vacinação e distanciamento social. Ela ressaltou que a imunização de crianças entre 5 e 11 anos de idade é necessária para conter a pandemia e que o uso de máscaras não apenas não deve ser flexibilizado, como adotado, também, no caso de gripe.

É quase surpreendente que o Ministério da Saúde conte com um quadro que avalia uma situação crítica com seriedade e clareza, em sentido diametralmente oposto ao que faz Bolsonaro, inimigo da vacinação, do distanciamento social e das máscaras. 

Basta lembrar o que o ministro Marcelo Queiroga disse ao ser questionado sobre os motivos do governo para fazer uma consulta pública sobre a vacinação infantil, já liberada pela Anvisa: “A pressa é inimiga da perfeição”. A prioridade do ministro responsável pela pasta da Saúde em uma pandemia que já vitimou 618 mil pessoas é uma só: defender Bolsonaro e de quebra ganhar votos de bolsonaristas empedernidos na próxima eleição. “O presidente Bolsonaro é um grande líder, tem nos apoiado fortemente”, disse Queiroga, que não viu nenhum problema na escandalosa intimidação de servidores da Anvisa por parte de Bolsonaro.

O avanço da variante Ômicron tem feito autoridades voltarem a cogitar a adoção de medidas restritivas nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Europa. Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro reagiu agressivamente à recomendação da Anvisa de cobrar certificado de vacinação de visitantes estrangeiros e disse, orgulhosamente, em um evento no Palácio do Planalto, que o uso de máscaras era proibido em seu gabinete.

Na distopia esquizofrênica em que se transformou o Brasil nos últimos três anos, a sociedade precisa contar com a força de suas instituições para sobreviver. Foi graças ao Supremo Tribunal Federal (STF) que Estados e municípios tiveram autonomia para adotar medidas para conter a pandemia. Responsável por oferecer as primeiras vacinas ao País, o governo de São Paulo continua a optar pela responsabilidade e prorrogou o uso obrigatório de máscaras até 31 de janeiro. Foi também do STF que veio a imposição ao Executivo de edição de uma portaria para cobrar o comprovante de imunização para estrangeiros que ingressam no País.

A imprensa tem exercido papel relevante ao divulgar informações sobre a pandemia e de tomar para si a responsabilidade de levantar indicadores sobre casos e mortes, algo que o governo tentava esconder. Esse esforço tem sido reconhecido pela sociedade. Uma pesquisa do Instituto FSB e da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que 65% da população é favorável à exigência da carteirinha de vacinação por estabelecimentos e que 66% têm medo de conviver com pessoas que não se imunizaram – como o presidente.

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