Alerta nas contas externas

O buraco nas transações correntes chegou a US$ 7,9 bilhões em outubro, atingindo em 12 meses a soma de US$ 54,8 bilhões, equivalente a 3% do Produto Interno Bruto

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2019 | 05h00

Com exportações em queda e saldo comercial minguante, o alarme soa mais forte no setor externo, até há pouco tempo o lado mais firme e mais seguro da economia brasileira. O alerta é especialmente relevante num momento de grande incerteza no mercado internacional. O buraco nas transações correntes chegou a US$ 7,9 bilhões em outubro, atingindo em 12 meses a soma de US$ 54,8 bilhões, equivalente a 3% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos 12 meses até setembro, o resultado negativo havia alcançado US$ 48,9 bilhões (2,67% do PIB).

Esses dados mostram se os negócios externos são saudáveis e sustentáveis em caso de choques provenientes de fora. As transações correntes são a medida mais ampla do intercâmbio com o exterior. Por isso a sua evolução é acompanhada com atenção. Essa conta inclui a balança comercial de bens, a balança de serviços (como viagens, fretes e assistência técnica) e as balanças de rendas primárias (como lucros, dividendos e juros) e secundárias (como remessas de trabalhadores no exterior).

Quando os dólares se tornam escassos, o País pode ser forçado a enfrentar ajustes dolorosos, como já ocorreu em outros tempos. A crise argentina é um exemplo instrutivo de como o desequilíbrio externo, traduzido em crise cambial, pode impor ajustes econômicos duros e socialmente penosos. Não há risco imediato de uma situação parecida no Brasil, mas é preciso dar atenção à piora dos indicadores.

A cobertura do buraco, ainda realizada graças ao investimento direto estrangeiro, está ocorrendo com menor folga. No mês passado, entraram US$ 6,8 bilhões sob essa rubrica, valor insuficiente para financiar o déficit de outubro. Em 12 meses, houve ingresso líquido de US$ 79,5 bilhões, equivalentes a 4,35% do PIB estimado para o período. No período até setembro, o País havia absorvido US$ 81,1 bilhões (4,43% do PIB). Esse tipo de investimento é o mais útil para a economia, porque reforça a atividade empresarial e é muito menos volátil que as aplicações financeiras.

O País pode ganhar com um déficit moderado em transações correntes. Quando esse déficit é coberto com financiamento estrangeiro - por meio de investimento direto -, absorve-se poupança externa e se pode investir mais em obras, máquinas e equipamentos. O resultado é um aumento do potencial produtivo.

Uma dívida externa moderada e administrada sem dificuldade é um componente importante desse quadro. O País dispõe de reservas internacionais de US$ 369,8 bilhões, mais que suficientes para cobrir a dívida bruta. Mas o quadro tem ficado menos confortável. O saldo do comércio de bens, principal fator de segurança das transações correntes brasileiras, continuou encolhendo em outubro. O superávit comercial acumulado em dez meses ficou em US$ 29,1 bilhões pelas contas do Banco Central (BC), bem menos que o contabilizado um ano antes (US$ 43,5 bilhões). Na comparação anual, as exportações diminuíram 6,7% e as importações aumentaram 0,7%.

A diminuição das vendas foi significativa em outubro, quando o valor faturado, de US$ 18,3 bilhões, foi 16,5% inferior ao de igual mês de 2018. E o resultado continuou piorando. Nas três primeiras semanas de novembro houve déficit de US$ 430 milhões, segundo relatório do Ministério da Economia. Como complicador adicional, continuaram as saídas de recursos investidos em papéis no mercado financeiro. Com juros menores e crescimento econômico próximo de 1%, o Brasil tem-se tornado menos atrativo para os investidores financeiros.

A crise argentina explica em parte a piora do saldo comercial do Brasil. Mas nem por isso o alerta deixa de merecer atenção - até porque a excessiva dependência de um mercado é um risco importante para a indústria e para a economia do Brasil. Não se trata de negligenciar os negócios no Mercosul. Ao contrário, é preciso dinamizar o bloco. Mas é indispensável cuidar da inserção mais ampla nas cadeias internacionais de produção e comércio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.