Alerta vermelho nas favelas

Com a demora ao auxílio emergencial e queda nas doações, as favelas pedem socorro

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2021 | 03h00

Em 2021 as favelas foram colhidas por uma tempestade perfeita: escalada do contágio; recrudescimento das medidas restritivas; redução das oportunidades de trabalho e renda; inflação da cesta básica; e fim do auxílio emergencial. Some-se a isso a queda brusca nas doações. No pior momento da pandemia, as populações das favelas, já de per si mais vulneráveis às infecções e às retrações econômicas, estão amargando a fome.

“Os dados são hoje os mais preocupantes desde o início da pandemia”, alertou o presidente do Instituto Locomotiva e Fundador da Data Favela, Renato Meirelles, “seja no número de pessoas sem poupança, seja no número de pessoas com falta de dinheiro para comprar comida, seja na redução do número de refeições”.

Levantamento do Locomotiva em parceria com a Central Única das Favelas (Cufa) mostrou que nas últimas semanas 68% dos moradores das favelas não tiveram dinheiro para comprar comida. Mais de 70% das famílias estão sobrevivendo com menos da metade da renda de antes da pandemia e 93% dos moradores não têm nenhum dinheiro guardado. 

Além disso, sofrem riscos sanitários maiores: 33% estão procurando seguir as medidas de prevenção, mas nem sempre conseguem, e 30% não conseguem, a imensa maioria porque precisa ganhar o pão de cada dia nas ruas. Dos entrevistados, 75% tiveram de fechar o próprio negócio ou deixar de fazer bicos por causa da crise, e desses, mais da metade ficou sem trabalhar cinco meses ou mais. Estima-se que o número de contágios nas favelas seja o dobro em relação a regiões mais nobres. 

Das famílias faveladas, 82% dependem de doação para se alimentar. Mas, assim como o prolongamento da pandemia levou a população a uma certa resignação e ao relaxamento do isolamento social, passado o pânico inicial, as doações também caíram dramaticamente.

Dados da Associação Brasileira dos Captadores de Recursos mostram que o volume acumulado de doações relacionadas à covid saltou de R$ 0,45 bilhão em abril, R$ 6,56 bilhões em fevereiro para R$ 6,3 bilhões em agosto. Desde então a curva se achatou. O número de doadores, que em maio chegou a 189 mil, despencou, e em dezembro foi de 5 mil.

A iniciativa Mãe da Favela, por exemplo, atendeu em 2020 5 mil favelas distribuindo 1,3 milhão de cestas básicas. Na segunda onda de covid, a queda nas doações foi de 90%. Lideranças comunitárias de Paraisópolis, em São Paulo, que chegaram a distribuir 10 mil “quentinhas” por dia, hoje distribuem entre 500 e 800. O coletivo carioca A Rocinha Resiste, que em 2020 distribuía regularmente cestas básicas para 1,5 mil famílias, conseguiu fazer uma distribuição extra de frango no Natal, e, desde então, mais nada. 

Enquanto a população testemunha aflita o horror dos profissionais de saúde tendo de escolher quem será ou não entubado, nas favelas muitas entidades filantrópicas têm de escolher a qual família doar comida, e muitas famílias têm de escolher entre o almoço e o jantar – quando têm essa escolha.

Desservidas desde sempre pelo Poder Público, as favelas estão habituadas a criar redes de solidariedade para ter acesso à internet, saneamento, saúde e educação. Segundo a Cufa, 96% das pessoas que receberam auxílio emergencial compraram comida para amigos e parentes. Como disse Meirelles, “é comum nas pesquisas ouvir a frase: nas favelas se o seu vizinho tem comida, ninguém passa fome, no sentido de que elas dividem o pouco que têm”. Mas agora, nem esse pouco elas têm. A média de refeições diárias das comunidades, que em agosto estava em 2,4, não chegou em fevereiro a 2 (1,9). “Tem dias que dá até briga na fila da marmita”, disse ao Estado a líder comunitária Antonia Cleide Alves.

A retomada do auxílio emergencial, retardada pela incúria do Poder Público, deve trazer um alívio mínimo. Mas assim como o Brasil enfrenta uma segunda onda ainda maior de covid, precisará de uma segunda onda maior de solidariedade. E tal como as novas cepas do vírus, as novas variantes da cidadania precisarão ser muito mais fortes e contagiosas.

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