Alívio

A maioria dos norte-americanos decidiu impedir pelo voto que Donald Trump completasse sua obra – a destruição da democracia nos Estados Unidos

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2020 | 19h21

O restabelecimento da política e do respeito às instituições como centro da vida democrática é o primeiro e mais significativo resultado da eleição do democrata Joe Biden à presidência dos Estados Unidos, confirmada neste sábado. Política pressupõe diálogo, mesmo, ou talvez principalmente, entre adversários figadais. Numa democracia digna do nome, não há divergência que não possa ser superada pela negociação civilizada e baseada no senso comum. Minorias devem ser ouvidas e a oposição deve ser respeitada, sob o signo da Constituição.

Assim, o desfecho da campanha presidencial norte-americana não é trivial em muitos aspectos. Não é apenas uma troca de governo, normal numa democracia. É a superação de um pesadelo, representado pela desvairada presidência de Donald Trump.

Joe Biden certamente terá muitas dificuldades para governar, tendo em vista não apenas a expressiva votação de seu adversário, mas um Congresso potencialmente hostil. Talvez não consiga fazer tudo o que prometeu e certamente enfrentará muitas crises, pois não é fácil ser presidente da maior potência democrática do mundo. 

Nada disso, contudo, importa neste momento histórico. O que interessa é que a maioria dos norte-americanos decidiu impedir pelo voto que Donald Trump completasse sua obra – a destruição da democracia nos Estados Unidos – e entregar a um político tradicional e experiente a tarefa de liderar o país nesta hora de profunda crise. A mensagem é clara: chega de aventuras irresponsáveis, lideradas por um demagogo que não tem nenhum apreço pela política, pela lei e pela verdade.

Como era previsível, o presidente norte-americano informou que não aceita o resultado e que a eleição “está longe de acabar”. Prometeu brigar na Justiça para contestar a votação em seu adversário em vários Estados. “Não vou descansar até que o povo norte-americano tenha a contagem de votos honesta que ele merece e que a democracia exige”, disse Trump em nota, sem mostrar qualquer prova de fraude. E ainda tuitou: “Eu venci esta eleição, por muito!”. Considerando que Trump ainda será presidente por cerca de dois meses, com os poderes que o cargo lhe garante e outros que ele imagina ter, não é desprezível a possibilidade de muita confusão.

A esta altura, porém, a voz de Donald Trump, embora seja formalmente a do chefe de Estado, tende a ser ignorada, a começar por muitos de seus próprios correligionários, que há tempos tentam se desvincular do presidente doidivanas. Não foram poucos os próceres do Partido Republicano a cumprimentar publicamente Joe Biden e a lhe desejar um bom governo, como devem fazer os que respeitam a democracia, independentemente de desavenças políticas.

Joe Biden, de acordo com suas primeiras palavras como presidente eleito, parece consciente de que há um longo caminho para cauterizar as profundas feridas da sociedade norte-americana, tão bem exploradas pelos bandoleiros que tomaram a Casa Branca com a infeliz eleição de Donald Trump – que tomou as legítimas aspirações de milhões de norte-americanos como pretexto para seu empreendimento liberticida.

Lembrando que o comparecimento às urnas foi um dos maiores da história dos Estados Unidos, onde o voto não é obrigatório, o presidente eleito disse a seus compatriotas que vai trabalhar para unir o país. “Com o fim da campanha, é hora de superarmos o ódio e a retórica raivosa e nos unir como nação. É hora de os Estados Unidos se unirem e de curarem as feridas. Somos os Estados Unidos da América. Não há nada que não possamos fazer quando estamos unidos”, declarou Biden.

Essa poderosa mensagem será ouvida em todo o mundo, mas especialmente em países assolados pelo populismo selvagem inspirado por Donald Trump, como o Brasil. Restabelece a esperança de que a democracia, malgrado suas crises e seus impasses, tem mecanismos para sobreviver aos piores ataques e a seus mais ferozes inimigos, desde que se preservem seus pilares – império da lei, imprensa livre, cidadania ativa e, acima de tudo, liberdade.

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