Amigos em apuros

Política externa imprudente está se revelando um constrangedor erro de cálculo, que certamente trará prejuízos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2019 | 03h00

Os apuros do premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, para se manter no poder são apenas o mais recente revés entre os chefes de Estado de direita com os quais o presidente Jair Bolsonaro decidiu estabelecer uma relação simbiótica e incondicional. Antes de Netanyahu, sofreram derrotas o ex-ministro do Interior italiano Matteo Salvini e o presidente da Argentina, Mauricio Macri. O primeiro, antes de ser defenestrado do poder, declarou-se “amigo” do filho de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro. O segundo recebeu do presidente brasileiro apoio explícito na sua tentativa de se reeleger – Bolsonaro chegou a dizer que uma vitória do grupo político da ex-presidente Cristina Kirchner transformará a Argentina numa “Venezuela” –, mas os resultados das prévias eleitorais mostraram que é quase certo o retorno do kirchnerismo.

No caso do premiê de Israel, Bolsonaro ignorou o delicado cenário político do Oriente Médio quando decidiu estabelecer laços com Netanyahu “com base em nossos valores e convicções profundas”, como o presidente escreveu em uma rede social ao celebrar a reeleição do israelense em abril.

Em todas essas situações, o presidente Bolsonaro claramente confundiu os interesses do Estado que chefia com os interesses do grupo ideológico que supõe integrar. Esse grupo é fruto da imaginação do agitador direitista norte-americano Steve Bannon, que ajudou o presidente Donald Trump a se eleger e tem a pretensão de criar um movimento internacional “populista, nacionalista e tradicionalista” contra “o marxismo cultural”, conforme disse em entrevista ao jornal espanhol El País em março. Na mesma entrevista, Bannon relatou sua proximidade com o presidente brasileiro e disse que “Bolsonaro e Salvini são meus melhores representantes”. Recentemente, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, esteve em Washington e se encontrou reservadamente com Bannon. Na ocasião, segundo reportagem do Estado, conversaram sobre o discurso que Bolsonaro fará na abertura da Assembleia-Geral da ONU.

O encontro do chanceler brasileiro com Bannon já seria absurdo em si. Ao levar em conta as opiniões daquele demagogo norte-americano, que não é ouvido mais nem mesmo na Casa Branca de Trump, para definir o teor de um pronunciamento do presidente do Brasil em um fórum internacional, a chefia da diplomacia nacional rebaixou-se como poucas vezes se viu na história.

Tudo isso é fruto de uma concepção equivocada do que vem a ser diplomacia presidencial – isto é, o envolvimento pessoal do presidente da República na formulação da política externa e na relação com outros chefes de governo. É natural, e muitas vezes desejável, que chefes de governo estabeleçam entre si um relacionamento pessoal, que extrapole os protocolos diplomáticos. Essa proximidade, se bem-sucedida, gera uma dinâmica política que acaba por destravar negócios e abrir oportunidades mais rapidamente do que faria a burocracia diplomática tradicional.

A “diplomacia presidencial” de Bolsonaro, contudo, não parece ter em vista a realização de negócios ou de acordos comerciais e diplomáticos satisfatórios; é, antes, transformação de um devaneio em política externa. Bolsonaro, seus filhos e seus conselheiros mais próximos parecem convencidos de que chegaram ao poder não como parte de um processo democrático rotineiro, e sim como parte de uma revolução mundial direitista contra o comunismo. Desse processo fariam parte todos os que Deus escolheu para a tarefa, conforme prega a doutrina bolsonarista.

Movido por esse espírito, Bolsonaro talvez tenha imaginado que os chefes de Estado com os quais julga ter profunda afinidade ideológica e de propósitos ficariam para sempre no poder, já que desígnio divino não se discute. Mas faltou combinar com os eleitores, que, aqui e ali, começam a rejeitar os amigos de Bolsonaro. Mais cedo do que se imaginava, a política externa imprudente de Bolsonaro está se revelando um constrangedor erro de cálculo, que certamente trará prejuízos ao Brasil. Quanto mais cedo mudar o rumo, melhor para o País.

 

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