Antídoto contra a desinformação

WhatsApp limitou para cinco o número de vezes que um usuário pode reenviar uma mensagem para seus contatos ou grupos

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2019 | 03h00

Com a finalidade de coibir a disseminação de fake news, o WhatsApp limitou para cinco o número de vezes que um usuário pode reenviar uma mensagem para seus contatos ou grupos. De acordo com a vice-presidente de comunicações da empresa, Victoria Grand, a limitação tem alcance global. “Estamos impondo um limite de cinco mensagens em todo o mundo a partir de hoje”, disse Victoria Grand no dia 21 de janeiro. Atualmente, o aplicativo tem 1,5 bilhão de usuários.

Não é a primeira vez que o WhatsApp limita o compartilhamento de mensagens. Até julho do ano passado, podia-se reenviar uma mensagem a 250 contatos. Depois, foi colocado o limite de 20 contatos. Agora são 5. “O WhatsApp foi projetado para mensagens privadas e o nosso objetivo é ajudar as pessoas a se conectarem de forma privada com seus entes queridos e com negócios importantes para elas. (...) Acreditamos que este (cinco vezes) é um número razoável para alcançar amigos próximos e ajudar a evitar abusos”, disse a empresa ao Estado.

Não há dúvida de que um limite menor de compartilhamentos dificulta a disseminação de mensagens abusivas. A medida pode, portanto, diminuir o alcance de alguns abusos que vinham ocorrendo, como a difusão de informações inverídicas, vídeos caluniosos e mensagens preconceituosas. Ao mesmo tempo, é evidente que o novo limite não elimina o risco da ocorrência desses abusos.

Não existe modelo que assegure de forma absoluta a veracidade das informações que circulam numa sociedade. Assim, seria uma ilusão supor que alguma medida, seja do poder público, seja de uma empresa privada, assegurará um ambiente plenamente protegido de informações falsas. A respeito do combate às fake news na campanha eleitoral, a presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, reconheceu que o problema ultrapassava as possibilidades da Justiça eleitoral. “Se tiverem a solução para que se evitem ou se coíbam fake news, nos apresentem. Nós ainda não descobrimos o milagre”, disse a ministra Rosa Weber.

Longe de representar uma indiferença com relação à qualidade da informação que circula numa sociedade, esse realismo é um dos mais eficazes elementos contra a disseminação de fake news. É precisamente a falsa sensação de segurança - a equivocada percepção de que se está num ambiente imune a informações distorcidas - que leva, entre outros motivos, a que pessoas reproduzam mensagens de conteúdo duvidoso, sem antes checarem sua origem e sua veracidade.

Numa sociedade livre, a informação deve ser livre - e isso, logicamente, acarreta riscos e vulnerabilidades nos mais diversos âmbitos. Mas não se trata, e aqui está o ponto decisivo, de um “problema” a ser resolvido. A liberdade é justamente o caminho - repleto de imperfeições, sem dúvida - para o desenvolvimento da sociedade.

Esse contexto imperfeito da informação, sempre exposto ao risco de fake news, é um alerta para a responsabilidade pessoal. Num Estado Democrático de Direito, cada cidadão é responsável pelo que conhece e divulga. O Estado não é seu tutor, seu vigia e seu protetor de influências supostamente prejudiciais. Cada um é responsável pelo modo como se forma e pelo modo como se informa.

Mais do que criar barreiras e limites à circulação de mensagens, o principal antídoto contra a desinformação é a educação de qualidade. Sem cidadãos bem alfabetizados - aptos a ler, entender e interpretar os mais variados conteúdos - a sociedade estará sempre refém, de um modo ou de outro, das manipulações mais toscas.

Nessa incessante batalha pela qualidade da informação numa sociedade livre, outra frente necessária é a valorização do jornalismo. As falsas notícias têm aparência de notícias, mas estão muito distantes de ser notícias de fato - apuradas, checadas e revistas. Uma sociedade bem educada sabe discernir quem engana e quem informa.

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