Ao luto, a covid juntou mais pobreza

Estudo mostra que grande parte das vítimas no País era de pessoas em idade de trabalhar, razão pela qual as famílias perderam uma renda anual de R$ 16,5 bilhões

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2022 | 03h00

A expressiva queda do número de brasileiros mortos por dia em consequência da covid-19 alimenta uma sensação de alívio e tende a estimular a percepção de que as coisas voltam ao normal. Mas o fato de que diariamente centenas de brasileiros ainda morrem por causa da pandemia mostra um quadro muito longe da normalidade. E o fato de que a covid-19 já provocou a morte de mais de 650 mil pessoas no País não pode nos deixar esquecer da imensidade da dor de familiares e amigos das vítimas.

A essa dor, soma-se a perda material que muitas famílias tiveram e que terá implicações por muitos anos. Boa parte das pessoas mortas pela covid-19 estava em idade de trabalhar e respondia por parcela expressiva da renda familiar. Em um ano, a renda que deixou de ser obtida por causa da morte de um ou mais membros causada pela covid-19 é de R$ 16,5 bilhões, como mostrou reportagem do Estadão (31/3). É dinheiro que faltou para o sustento dessas famílias e para impulsionar a economia. A perda terá consequências duradouras. Quando, para essas famílias, a normalidade estará de volta, mesmo que a pandemia seja contida?

Graças à vacinação e às medidas de proteção adotadas pela grande maioria da população, o número de mortes pela covid-19 teve redução notável. Em abril do ano passado houve registros de mais de 4 mil mortes por dia; agora, a média móvel de vidas perdidas por dia está abaixo de 300. Apesar da redução, o número é muito alto e está longe de representar uma situação normal. A pandemia ainda mata – e muito.

O impacto dessas mortes na renda foi medido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) com base em dados do IBGE sobre rendimento médio mensal por sexo e nível de instrução, combinados com o número de pessoas com 20 anos de idade ou mais mortas pela covid-19 entre março de 2020, quando a pandemia chegou ao Brasil, e março deste ano. Segundo o estudo, a massa de rendimentos médios mensais que deixou de ser paga na faixa de 20 a 69 anos de idade alcançou R$ 754,3 milhões. Na faixa acima dos 70 anos, a perda mensal foi de R$ 617 milhões e em um ano, de R$ 7,4 bilhões. A soma das perdas nas duas faixas etárias é de R$ 16,5 bilhões.

O estudo também estima quanto essas vítimas da covid-19 poderiam acrescentar à renda familiar durante o período ativo caso não tivessem sua vida interrompida pela pandemia. Considerando idade média ao morrer, expectativa média de vida e rendimento médio obtido na época da morte, a conclusão é que as pessoas com idade entre 20 e 69 anos mortas pela covid teriam capacidade para acrescentar até R$ 286 bilhões à renda familiar se não tivessem perecido em razão da doença.

A perda de renda que a morte dessas pessoas causou é o efeito direto mais visível da pandemia sobre a situação material de suas famílias. Mas há outro, observado pelo coordenador do Núcleo de Contas Nacionais do Ibre/FGV, Claudio Considera. Além de sua capacidade de trabalho, essas pessoas transmitiam conhecimentos para as gerações seguintes. “Quantas pessoas deixaram de fazer seus trabalhos e deixaram de transmitir suas experiências?”, pergunta Considera.

Quanto à situação socioeconômica das vítimas da pandemia, há outro aspecto cruel. Em São Paulo, as famílias mais vulneráveis, moradoras de regiões com menos serviços urbanos, e os negros estão entre as principais vítimas da pandemia, de acordo com levantamento do Instituto Pólis, que estuda o impacto das políticas públicas. Há uma sobreposição de vulnerabilidades em determinadas áreas da cidade de São Paulo, diz a coordenadora-geral do Instituto, Danielle Klintowitz. Nessas áreas, juntam-se as piores condições de renda, as piores condições de moradia (maior número de pessoas por domicílio) e a maior concentração de negros.

A persistência de um número ainda alto de mortes por covid é consequência do atraso no início da vacinação e de seu boicote por bom tempo pelo presidente Jair Bolsonaro, que defendia o uso de medicamentos comprovadamente ineficazes para combater a doença.

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