Apedeutas cívicos

Que as instituições do País não se intimidem e exponham as patranhas do presidente

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2021 | 03h30

Sempre que sua escandalosa incompetência fica clara para todo o País, como é o caso de sua conduta criminosa ao longo da crise causada pela pandemia de covid-19, o presidente Jair Bolsonaro tenta maliciosamente atrair os brasileiros para seu universo delirante – em que o inimigo a ser combatido não é o coronavírus ou o desemprego, que são bem reais e ameaçam de fato a vida e o bem-estar de todos os brasileiros, mas o comunismo, que só existe no discurso demente dos camisas pardas bolsonaristas.

Nesse mundo, a democracia não é uma conquista dos cidadãos brasileiros, consubstanciada na Constituição de 1988, mas uma concessão das Forças Armadas. “Quem decide se um povo vai viver na democracia ou na ditadura são as suas Forças Armadas”, declarou Bolsonaro na segunda-feira, dia 18, a um punhado de devotos. “Não tem ditadura onde as Forças Armadas não apoiam.”

Quando é necessário esclarecer ao presidente da República que, numa democracia, as Forças Armadas não são um poder moderador e estão submetidas ao poder civil livremente escolhido pelos eleitores, é porque a Presidência está ocupada por um apedeuta cívico.

Mas há apedeutas e apedeutas. Há os que não tiveram a educação cívica necessária para a convivência democrática saudável e acreditam que a democracia é mesmo um presente dos militares, como é o caso dos tolos que se dizem saudosos da ditadura, e há os espertalhões que, uma vez no poder, pretendem insidiosamente arrastar as Forças Armadas para uma desvairada aventura autoritária. Nem é preciso dizer qual apedeuta é mais perigoso.

“O pessoal parece que não enxerga o que o povo passa, para onde querem levar o Brasil. Para o socialismo. Por que sucatearam as Forças Armadas ao longo de 20 anos? Porque nós, militares, somos o último obstáculo para o socialismo”, disse Bolsonaro. Nem é o caso de comentar a sugestão ridícula de que as dificuldades orçamentárias dos militares foram deliberadamente causadas por “comunistas” para tomar o poder. O importante é que o presidente, ao se qualificar como “militar” – malgrado ter saído da caserna há mais de 30 anos, e de maneira desonrosa –, tenta amalgamar seu governo às Forças Armadas, como se fossem uma coisa só, na luta contra o “socialismo”.

Não foi a primeira vez que Bolsonaro fez isso, e nada indica que será a última, já que a ignorância e a má-fé deixaram uma marca indelével em seu caráter. Diante da significativa queda de popularidade detectada por recentes pesquisas e da crescente mobilização de parte da sociedade por seu impeachment, Bolsonaro tende a recrudescer sua guerra pessoal contra os brasileiros que não levam seu sobrenome ou não lhe devotam religiosa lealdade.

Nessa guerra tresloucada, a verdade, por ser a expressão da realidade, é a principal inimiga. A mentira tornou-se política de Estado sob Bolsonaro, e isso ficou ainda mais claro durante a pandemia. Na segunda-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) teve de soltar uma nota oficial para dizer que “não é verdadeira” a afirmação de que proibiu o governo federal de agir no enfrentamento da pandemia, desmentindo mais uma vez o presidente da República, que voltou a usar essa “decisão do STF”, que só existe em sua imaginação cavilosa, para justificar sua indecorosa inação.

Quando a principal Corte do País é obrigada a vir a público para expor uma mentira descarada do presidente da República, é porque já não se trata mais de apenas corrigir informações equivocadas eventualmente disseminadas pelo governo, e sim de impedir que a sistemática campanha mendaz do bolsonarismo atinja seu objetivo: destruir a confiança nas instituições democráticas, alimentar o antagonismo e abrir caminho para empreendimentos golpistas. 

“No Brasil temos liberdade ainda”, mas “tudo pode mudar”, advertiu Bolsonaro, usando o advérbio que indica uma circunstância provisória, incerta. Que as instituições não se intimidem, exponham as patranhas do presidente e deixem claro a quem interessar possa que a democracia no Brasil não é uma contingência frágil, e sim uma sólida construção coletiva, que resistirá até mesmo ao bolsonarismo.

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