Apenas um showman medíocre

À falta de coordenação do MEC, secretarias seguem as diretrizes dos governos locais

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2020 | 03h00

A rigor, é incorreto afirmar que o Ministério da Educação (MEC) segue à deriva. A julgar pelas ações e palavras do ministro Abraham Weintraub, há um direcionamento muito claro para a pasta: criar o máximo de confusões que alguém inepto e movido por um inexplicável desejo de vingança é capaz de produzir. E neste intento, a bem da verdade, não há quem possa dizer que a assim chamada “gestão” de Weintraub à frente de um dos mais importantes Ministérios da Esplanada não seja um sucesso. Assim deve ver o seu chefe imediato, o presidente Jair Bolsonaro, que há mais de um ano o mantém no cargo a despeito do incontornável fato de que seu ministro nada fez de relevante para o desenvolvimento da educação no País até agora. E nada indica que fará.

Entre a provocação de mais um incidente diplomático com a China e a zombaria com a morte de uma senhora por covid-19, Weintraub encontrou tempo para criar mais uma confusão. No Twitter, sua arena de predileção, o ministro recomendou que “os governadores devem planejar o retorno das aulas, tirar as nádegas das cadeiras e rebolar atrás do prejuízo”. Abraham Weintraub é mais um membro do primeiro escalão do governo federal a desdenhar da gravidade da maior emergência sanitária em um século. Sem tecer considerações mais alongadas sobre a indignidade de seu vocabulário, o que ele recomenda é, antes de tudo, um perigo, uma grave ameaça à saúde pública. Por sorte, suas palavras não têm ressonância além dos bolsonaristas mais fervorosos que o acompanham na internet, ou seja, o raio de estragos que a sua escrita irresponsável pode produzir é limitado. Custa crer que governadores e prefeitos minimamente responsáveis autorizarão a volta às aulas no momento em que o País nem sequer atingiu o pico de contaminações pelo novo coronavírus. Planos de flexibilização da quarentena já vêm sendo discutidos por alguns entes federativos, mas em nenhum deles, pelo que tem sido noticiado, consta a reabertura das escolas, nos termos ditados pelo ministro.

Além da inoportuna e perigosa volta às aulas, o ministro Abraham Weintraub defendeu a manutenção do calendário do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2020. “Cancelar o Enem será mais um tijolo na muralha do autoritarismo em construção. Sem expectativas, 5 milhões de jovens perdem o ano, sem emprego, faculdade e presos em casa. Ganham a União Nacional dos Estudantes (UNE) e os monopolistas que criarão a grande empresa privada para substituir as federais. Vai ter Enem”, escreveu o ministro no Twitter.

Sob quaisquer parâmetros, neste momento, tanto a volta às aulas como a manutenção do calendário do Enem são dois disparates em meio ao enfrentamento da pandemia de covid-19. Os riscos de natureza sanitária das propostas de Weintraub são tão óbvios que tecer considerações mais alongadas sobre eles pareceria uma ofensa à inteligência dos distintos leitores. Do ponto de vista estritamente acadêmico, o argumento do ministro é incoerente, haja vista que os alunos mais carentes – os que ele pretende “proteger” – são justamente os que têm pouco ou nenhum acesso a aulas online. Logo, os que mais são prejudicados pela perda de conteúdo didático no período de necessário isolamento. Vê-se com isso que o ministro Weintraub está muito mais preocupado em advogar pela volta à normalidade – com claro objetivo de se alinhar ao discurso de seu chefe – do que propriamente com a saúde ou os interesses de alunos, suas famílias e professores.

O Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) divulgou nota em que manifesta discordância com as posições do MEC e “reitera sua posição pela necessidade de ajuste no cronograma (do Enem) em benefício de nossos estudantes, especialmente os mais carentes da rede pública”.

À falta de coordenação do MEC, as Secretarias da Educação de Estados e municípios seguem diretrizes dos governos locais, em boa medida orientadas por critérios técnicos e pelo bom senso. Enquanto isso, Abraham Weintraub segue no cargo como dublê de ministro e showman incompetente.

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