Aperto contra a inflação

Sem eufemismo, o BC anuncia uma política apertada contra o aumento de preços

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 03h00

Com a inflação desembestada e ameaçando romper todos os limites em 2021, resta ao Banco Central (BC) apertar sua política e tentar enquadrar os preços em 2022. Juros de 7% no fim deste ano e ao longo do próximo já estão claramente indicados no plano de ação do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC. Sem eufemismo, a palavra “aperto” é usada para definir a nova estratégia anti-inflacionária. O termo aparece na ata da última reunião do comitê, realizada na primeira semana de agosto. O jogo mais duro começou nessa reunião, com a elevação da taxa básica, a Selic, de 4,25% para 5,25% ao ano. Os aumentos anteriores haviam sido de 0,75 ponto porcentual.

Se faltasse algum dado para justificar o aumento de juros, bastaria ver a inflação oficial: 0,96% em julho, 4,76% no ano e 8,99% em 12 meses, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A nova taxa foi a maior para um mês de julho desde 2002, quando a variação foi de 1,19%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Divulgados uma hora depois da ata do Copom, esses números confirmam um desarranjo muito maior que aquele observado, como efeito da pandemia, na maior parte do mundo. A inflação anual no Grupo dos 20 (G-20), formado pelas maiores economias do mundo, chegou a 4,6% em junho, quando a taxa acumulada no Brasil bateu em 8,35%, número superado, nesse conjunto de países, só pelos desastrosos 50,2% da Argentina.

No mercado brasileiro, as estimativas da alta de preços têm piorado seguidamente. O IPCA chegará a 6,88% no fim do ano, se os fatos confirmarem a mediana das projeções publicadas na última segunda-feira. Um mês antes essa mediana estava em 6,11%, segundo a pesquisa Focus, conduzida semanalmente pelo BC. De acordo com a mesma pesquisa, até dezembro a taxa básica de juros atingirá 7,25%, superando por 0,25 ponto o patamar já admitido pelo Copom.

Uma inflação de 6,88% ficará muito acima do limite de tolerância, de 5,25%. Já nem se fala da meta deste ano (3,75%). Mas, pela projeção do mercado, também a meta do próximo ano, de 3,5%, será ultrapassada pela alta de preços, estimada em 3,84%. Além disso, os economistas do mercado estendem até o fim de 2022 a previsão de juros de 7,25%. Com mais otimismo, o Copom calcula para 2022 uma inflação compatível com a meta, mas isso dependerá do aperto recém-começado.

No cenário básico do Copom, o IPCA terá subido 6,5% até o fim deste ano. Qualquer das duas projeções, do Copom ou do mercado (6,88%), só será confirmada se uma dura freada for imposta à alta de preços. Nada permite prever, ainda, um avanço mais lento do IPCA neste semestre. Ao contrário: novas pressões poderão surgir, segundo admitem também os membros do Copom, com a normalização dos preços dos serviços e com os efeitos da seca. Além disso, há o risco de um repasse maior das altas de preços por atacado.

O conjunto desses preços aumentou 1,65% em julho, 19,85% no ano e 43,85% em 12 meses, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV). Esses valores têm sido inflados pelas cotações internacionais de alimentos e minérios e por desajustes no suprimento de insumos industriais, como componentes eletrônicos. O repasse desses aumentos ao varejo tem sido limitado pelas condições do consumo, afetadas pelo desemprego e pela perda de renda das famílias.

Em qualquer circunstância a inflação é mais dolorosa para as pessoas de baixa renda, porque seu orçamento é pouco flexível e pouco ajustável a condições difíceis. Além disso, no Brasil a inflação dos pobres tem superado a dos mais abonados ou menos desfavorecidos. Em julho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), baseado no orçamento das famílias com renda mensal de até cinco salários mínimos, subiu 1,02%, segundo o IBGE. A alta chegou a 5,01% no ano e a 9,22% em 12 meses. Os mais afetados pela disparada dos preços são também os mais sujeitos ao desemprego, ao subemprego e à informalidade. Para esses, o aperto é permanente, principalmente no orçamento destinado ao pão – quando possível – de cada dia.

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