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Bolsonaro e Lula geram mais rejeição do que atração aos candidatos por eles apoiados.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2020 | 03h00

Ao contrário do que apregoava até pouco tempo atrás, o presidente Jair Bolsonaro decidiu entrar na campanha eleitoral deste ano e declarou apoio a Celso Russomanno (Republicanos) na disputa pela Prefeitura da capital paulista. “São Paulo precisa de um prefeito com o apoio do presidente da República”, “Bolsonaro pegou no meu braço e disse ‘Celso, cuida de São Paulo’”, disse um enternecido Russomanno em seu programa de estreia no horário eleitoral gratuito no rádio e na TV.

Entretanto, desde que decidiu associar sua imagem à do presidente da República, Celso Russomanno viu despencar em 7% suas intenções de voto. O candidato do Republicanos perdeu a liderança da corrida eleitoral para o atual prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), candidato à reeleição, repetindo até aqui a trajetória de suas campanhas para o Executivo municipal em 2012 e 2016. De acordo com a pesquisa Datafolha divulgada no dia 22 passado, Russomanno caiu de 27% para 20% das intenções de voto e Covas subiu de 21% para 23%. Ambos estão empatados tecnicamente, dentro da margem de erro da pesquisa.

Bolsonaro também apoia a reeleição do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. Como em São Paulo, o escolhido pelo presidente não vai bem nas pesquisas. O ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) tem 28% das intenções de voto, mais do que o dobro das de Crivella (13%).

Os resultados se coadunam com outra pesquisa, também realizada pelo Datafolha, que revelou que a associação com Jair Bolsonaro e com o ex-presidente Lula da Silva é fator de aumento da rejeição aos candidatos por eles apoiados, e não de atração. O instituto de pesquisa ouviu 1.092 eleitores paulistanos entre os dias 5 e 6 de outubro.

Quando instados a avaliar o apoio político dado pelo presidente Jair Bolsonaro, 63% dos entrevistados pelo Datafolha responderam que “não votariam de jeito nenhum em um candidato apoiado por ele”. Para 16% dos respondentes, o apoio de Bolsonaro os “levaria a escolher esse candidato (apoiado) com certeza”. E para 18%, o apoio conferido pelo presidente da República “talvez” os faça votar no candidato apoiado por ele. Dois por cento dos entrevistados deram outras respostas e 1% não soube responder.

Já a rejeição a um candidato apoiado por Lula da Silva na cidade de São Paulo é menor do que a apurada em relação a Jair Bolsonaro, mas ainda assim é bastante significativa: 54% dos entrevistados pelo Datafolha disseram que “não votariam de jeito nenhum” em um candidato apoiado pelo chefão petista. Já para 21% dos respondentes, o apoio de Lula da Silva é decisivo para a escolha de seu candidato a prefeito. E para outros 23%, a chancela do ex-presidente “talvez” os faça votar no ungido por ele. Um por cento deu outras respostas e 1% não soube responder. Não surpreende, portanto, por que Jilmar Tatto (PT) ocupe hoje uma posição inglória, jamais ocupada por outro candidato petista à Prefeitura de São Paulo. Tatto tem 4% das intenções de voto, empatado tecnicamente com Arthur do Val (Patriota), o chamado “Mamãe Falei”.

O nível de rejeição a um candidato é fator que tem enorme peso em uma eventual disputa em segundo turno. A alta rejeição a Russomanno provocada pelo apoio de Jair Bolsonaro pode beneficiar o candidato tucano caso sejam refletidas nas urnas as preferências que hoje são capturadas pelos institutos de pesquisa. A bem da verdade, Covas é apoiado pelo governador João Doria, que, segundo o Datafolha, também provoca mais rejeição (60%) do que atração (36%). Entretanto, dois fatores pesam a favor do atual prefeito para angariar votos além dos advindos diretamente em decorrência do apoio do governador João Doria: Bruno Covas conseguiu arregimentar a maior coligação de partidos em torno de sua reeleição e tem a aprovação da maioria dos paulistanos para sua atuação durante a pandemia de covid-19, de acordo com uma pesquisa do Ibope realizada em setembro.

O resultado da eleição municipal é incerto, evidentemente. O que parece certo é o cansaço dos paulistanos com uma polarização política estéril.

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