As agruras de Trump

Se quiser vencer em novembro, presidente terá de rapidamente superar suas fragilidades

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2020 | 03h00

Colaboradores próximos do presidente dos EUA, Donald Trump, queixaram-se à imprensa americana recentemente, sob a condição de anonimato, de que não veem no atual mandatário o ímpeto esperado de alguém que deseja sair vitorioso de uma campanha pela reeleição, como se Trump demonstrasse sinais de desgaste. Em entrevista à rede de TV Fox News na semana passada, o próprio presidente mostrou uma resignação que não se coaduna com sua persona pública, sempre desafiadora. “Se eu não ganhar, não ganhei. Irei adiante, você sabe, farei outras coisas”, disse Trump. O presidente americano respondia a um receio manifestado por seu adversário, o democrata Joe Biden, de que ele poderia “trapacear” para permanecer na Casa Branca.

É muito cedo para dizer se Trump, de fato, está ou não disposto a exercer mais um mandato presidencial. Além do mais, até que ele mesmo verbalize qual o seu estado de espírito, tudo não passa de especulação. Fato é que, se Trump precisava de um estímulo, a retomada de sua campanha eleitoral no sábado passado teve efeito diametralmente oposto. Pouco mais de 6 mil lugares foram ocupados no estádio com capacidade para 19 mil na cidade de Tulsa, em Oklahoma. A desoladora imensidão de cadeiras vazias se sobrepôs aos poucos milhares que assistiram ao discurso de Trump, compondo o cenário bem-acabado de um presidente cercado apenas por um nicho de apoiadores mais sectários.

Diz-se que a ruína de uma noite que prometia ser triunfante para Trump deveu-se à ação coordenada de milhões de adolescentes usuários do TikTok, um aplicativo para compartilhamento de vídeos curtos, e fãs de música pop coreana, o chamado K-Pop. Esses jovens se cadastraram em massa no site do evento, obtiveram boa parte dos ingressos e, evidentemente, não compareceram, deixando o presidente americano falando para poucos. Em que pese o sucesso da artimanha engendrada por esses dois grupos de jovens com fortíssima presença nas redes sociais, não é razoável atribuir exclusivamente a eles o esvaziamento do comício de Donald Trump. Não se pode perder de vista que o presidente americano está acossado por múltiplas crises que desgastam a sua popularidade.

Por mais que tente dar a pandemia de covid-19 por encerrada nos EUA – inclusive tentando fazê-la desaparecer por ato de vontade ao pedir a diminuição do número de testes para que os números de infectados e mortos caiam proporcionalmente –, a disseminação do novo coronavírus segue alheia ao desejo de Trump. Nas últimas duas semanas, houve um aumento de 15% no número de casos em Estados do Sul, do Centro-Oeste e da Costa Oeste do país. O número de novas contaminações por dia voltou ao patamar de abril, cerca de 30 mil, e os EUA seguem como o país com o maior número de mortos em decorrência da covid-19 (122,3 mil). Tanto esse avanço da pandemia preocupa o governo que o assessor comercial da Casa Branca, Peter Navarro, admitiu que os EUA estão se preparando para uma segunda onda de infecções.

Além da emergência sanitária propriamente dita, para a qual muitos americanos julgam Trump despreparado para enfrentar, há os efeitos econômicos da pandemia, que corroem ainda mais a base de sustentação do presidente americano. No afã de reabrir a economia para conter esse dano, muitos governadores republicanos veem o número de casos de covid-19 crescer em seus Estados – a exceção é a Califórnia, governada pelo Partido Democrata. Este círculo vicioso em nada ajuda Trump em sua campanha pela reeleição. Some-se ao quadro a mais grave crise social desde o final da década de 1960, desencadeada pelos recentes episódios de violência policial contra negros. Durante os 90 minutos de seu discurso no evento em Tulsa, Donald Trump não mencionou o assassinato de George Floyd nem uma vez sequer, como se essa onda de protestos pelo país não lhe dissesse respeito.

Se a vitória em novembro era dada como certa até alguns meses atrás, a eclosão da pandemia e das manifestações por igualdade racial nos EUA expôs fragilidades que Trump terá de superar rapidamente se quiser permanecer na Casa Branca por mais quatro anos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.