As duas faces da inflação baixa

Há motivos para festejar e para lamentar o alto desemprego numa economia estagnada

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2019 | 03h00

Com pouco dinheiro e muita incerteza, as famílias têm motivos especiais para festejar a inflação baixa – e razões ainda mais fortes para lamentar uma de suas causas principais, o alto desemprego numa economia estagnada. Com a deflação de 0,04% em setembro, os preços pagos pela maioria dos brasileiros acumularam alta de 2,49% no ano e de 2,89% em 12 meses, bem longe da meta anual de 4,25%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O bom comportamento do principal indicador oficial de inflação, até surpreendente para alguns analistas, resulta de causas desejáveis e indesejáveis. O primeiro grupo inclui fatores como a boa oferta de alimentos e a estabilidade do preço da energia elétrica, depois de uma longa fase de alta. No segundo grupo estão as condições ainda muito ruins do mercado de emprego, a insegurança dos consumidores e a consequente fraqueza dos negócios.

Com as famílias controlando rigidamente suas despesas, a inflação foi puxada, durante a maior parte do ano, pelos preços monitorados, como as tarifas de energia elétrica, de transporte público e de serviços de água e saneamento.

Preços da comida, afetados pelo mau tempo, subiram com vigor nos primeiros meses, mas a oferta logo se normalizou. Depois, a inflação passou a ser impulsionada pelos três níveis de governo, por meio de preços independentes da ação do consumidor. Nem as compras na Semana do Brasil, promovida pelo governo, esquentaram os preços. Ao contrário: com descontos em eletrodomésticos e outros equipamentos, os artigos de residência ficaram 0,76% mais baratos.

Não há pressão de demanda sobre o IPCA, comentou o gerente do sistema de preços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Pedro Kislanov da Costa, resumindo um fato evidenciado há meses pelos principais indicadores. A economia, observou Kislanov, está em recuperação, “de forma lenta e gradual, com retomada do emprego, mas principalmente na informalidade”.

As condições da economia foram mencionadas também por economistas do mercado. As palavras estagnação e ociosidade foram usadas para indicar alguns dos principais fatores de contenção dos preços. Essa explicação tem sido realçada nos comunicados do Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC).

Referências à ociosidade de mão de obra e de bens de produção têm aparecido nas análises do comitê, quando se trata de explicar suas decisões. A menção ao baixo nível de atividade e à ampla subutilização de fatores tem pelo menos duas implicações. Indica, em primeiro lugar, condições para a economia crescer por bom período sem grandes pressões inflacionárias. Em segundo lugar, justifica a manutenção de uma política estimulante, materializada, neste ano, em dois cortes da taxa básica. Com os cortes, a taxa passou de 6,50% para 5,50%. O ano terminará, segundo estimativa corrente, com juros básicos de 4,75%.

Crédito mais barato, no entanto, é apenas um dos fatores favoráveis à elevação da atividade econômica e do emprego. Confiança de empresários e consumidores é um elemento ainda mais importante. Isso depende, em boa parte, do avanço dos ajustes e reformas e de uma clara definição do rumo do governo. Mas um pontapé inicial pode fazer diferença.

Enquanto esperam indícios mais claros de reação econômica, os desempregados, subempregados e desalentados, quase 25 milhões de pessoas, podem pelo menos consolar-se com a inflação mais baixa. Isso vale principalmente para as famílias de renda mais baixa.

Para aquelas com ganho mensal entre um e cinco salários mínimos, a deflação foi de 0,05% em setembro e a inflação acumulada no ano bateu em 2,63%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), também elaborado pelo IBGE. Além de mais vulneráveis a quaisquer aumentos de preços, essas famílias são especialmente prejudicadas pelas más condições do emprego e mais sujeitas, quando se empregam, ao risco da informalidade. São, portanto, as mais prejudicadas pela vagarosa recuperação da economia.

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