As escolhas dos argentinos

Urnas revelaram o desejo de abandonar os erros do peronismo – mas também o risco de trocar a política por aventuras

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2021 | 03h00

“Repetir a mesma coisa esperando outros resultados” é uma célebre definição de insanidade. Há 75 anos os argentinos buscam satisfazer seus anseios por justiça social, independência econômica e soberania política recorrendo a intervencionismos, estatismos e protecionismos, recorrentemente intoxicados pelos ressentimentos e teorias conspiratórias que compõem a atmosfera do peronismo. Ao conferir um dos mais duros golpes a essa ideologia nas eleições legislativas, a Argentina dá sinais de querer resgatar sua sanidade política. A questão é se os peronistas persistirão em seus erros.

Há um século, a renda per capita argentina era superior a quase todos os países europeus. Mas os gastos públicos, que nos anos 40 correspondiam a 10% do PIB, chegaram a 30% nos anos 70 e em 2015 atingiram 46%. O crônico déficit fiscal é responsável por recordes mundiais em duração da inflação.

“Pelo lado dos recursos, a Argentina mantém intacto todo o seu potencial, talento e capacidade de esforço de sua população”, disse o cientista político Alejandro Poli, resumindo o cenário argentino. “Mas estes elementos positivos são compensados pela presença de um Estado hipertrofiado em gastos e diminuto em serviços, hiperativo em regulações, mas ausente de sua função de criar âmbitos propícios ao desenvolvimento e à equidade; de um Estado cooptado pela corrupção, que é um pesado lastro para a sociedade civil.”

Pela primeira vez em quatro décadas os peronistas perderam o controle do Senado. Na Câmara, ficaram com duas cadeiras a mais que a oposição, mas perderam a maioria. O dilema do governo é buscar composições ou radicalizar, como quer a vice-presidente Cristina Kirchner. Já o presidente Alberto Fernández falou em um “diálogo construtivo”. Ao mesmo tempo, disse que o ordenamento das contas do Estado não exige ajustes dos gastos públicos.

Isso sugere que a perspectiva para os próximos dois anos é de um governo sem margem para mais insanidades, mas sem pulso para promover reformas ou abertura da economia. Se uma composição no Congresso realizar ajustes econômicos que controlem a inflação e viabilizem a renegociação da dívida de US$ 44 bilhões com o FMI, será uma vitória que criará as condições para a renovação que se desenha para as eleições de 2023.

Não será fácil. Além das dificuldades de consenso entre governo e oposição, as eleições manifestaram um mal-estar com a classe política, e mesmo com a política, nos avanços inéditos de movimentos antissistema, como a esquerda trotskista ou os ultralibertários.

Reverter o declínio socioeconômico argentino é possível se os peronistas rejeitarem seus membros radicais e se os eleitores rejeitarem outro mandato peronista em 2023. Essas rejeições serão humilhantes para o peronismo, mas lhe darão uma oportunidade de experimentar a humildade, resgatar o que há de positivo em sua história e buscar consensos. Mas, se os argentinos optarem pela rejeição à política, o círculo vicioso em que estão metidos poderá se perpetuar em uma espiral mais longa e devastadora. 

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