As fontes da ‘infodemia’

A mídia profissional e as autoridades públicas têm papel maior do que se supõe nesta era

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2020 | 03h00

Uma das tendências globais aceleradas com a pandemia é a digitalização das relações humanas. O impacto comporta desafios, oportunidades e riscos, estes últimos amplificados e agudizados pelo pânico derivado das ameaças sanitárias e econômicas. Um dos maiores riscos é a viralização de informações falsas, a chamada “infodemia” de desinformação. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Cornell quantificou as fontes e temas na “infodemia” de covid-19, e tem particular interesse por ser o primeiro a buscar uma análise abrangente da desinformação causada pela mídia profissional – foram examinados 38 milhões de artigos em inglês entre janeiro e maio – e pela influência de autoridades públicas.

O fenômeno da desinformação é vastamente associado às mídias sociais, despertando apelos à regulação do conteúdo circulado. Mas a desinformação também aparece na mídia tradicional, tipicamente sob duas formas: a sua amplificação por meio da reprodução de declarações de figuras proeminentes e a sua redução pela checagem de fatos. Mas as evidências mostram que esta última atividade é comparativamente pequena: apenas 16,4% das matérias sobre desinformação tinham a natureza de verificação de fatos. De resto, esse tipo de matéria costuma aparecer tarde, depois que a disseminação correu solta.

As discussões sobre informações falsas respondem por 46,6% da frequência, sendo 26,4% referentes a “curas milagrosas” e o restante a teorias da conspiração – desde a Nova Ordem Mundial, passando pela ideia do vírus como uma arma biológica fabricada na China, até narrativas implicando manipulações por parte de Bill Gates ou do Partido Democrata norte-americano.

Mas talvez o fato mais notável mensurado pela pesquisa é que, na disseminação de informações falsas e teorias da conspiração, a miríade de fontes alternativas, como grupos antivacinação e extremistas políticos, contribui bem menos para o volume de desinformação do que protagonistas poderosos. Notadamente, as menções ao presidente Donald Trump respondem por 37,9% de todas as matérias sobre desinformação. “O presidente dos EUA foi provavelmente o maior vetor da ‘infodemia’ de desinformação da covid-19”, concluem os pesquisadores.

Um exemplo – no caso, relativo a “curas milagrosas” – foi a defesa de Trump da hidroxicloroquina, que despertou uma quantidade substancial de cobertura de mídia, levando à subsequente escassez da droga – utilizada no tratamento da malária e do lúpus – e logo à descoberta de que ela é ineficaz e mesmo nociva aos contaminados pela covid-19. Outro pico de disseminação foi a menção de Trump aos potenciais efeitos curativos da ingestão de desinfetante.

Já em janeiro começou a circular uma teoria da conspiração sugerindo que a pandemia fora fabricada para coincidir com o processo de impeachment de Trump. Mas só em maio, após o filho do presidente Eric Trump sugerir que o vírus desapareceria como que por mágica após as eleições, a politização da crise catalisou as pressões sobre os Estados contra os lockdowns e pela abertura da economia.

Numa crise sanitária a desinformação é letal. Estima-se que na pandemia de HIV/aids a desinformação e seu impacto sobre as políticas públicas tenham causado, só na África do Sul, 300 mil mortes a mais. O que o estudo da Cornell revela é que, na era das redes sociais, o papel da mídia profissional e das autoridades públicas é bem maior do que se supõe. A repetição acrítica de comentários de pessoas influentes tende a ganhar muito mais credibilidade aos olhos do público, que vê com mais ceticismo as informações das mídias sociais. Mais do que novos dispositivos legais, isso clama por mudanças de cultura por parte dos profissionais de mídia. É crucial que declarações manifestamente falsas sejam retificadas nas próprias matérias que as reportam e que seja dada mais proeminência aos representantes de instituições científicas. Isso é decisivo para ajudar a opinião pública a responsabilizar – quando não legalmente, moralmente – as autoridades por declarações imprudentes e abertamente deletérias.

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