As fragilidades da indústria

A crise da indústria é antiga; seu desempenho recente mostra que o vírus só agravou velhas fragilidades

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2022 | 03h00

E m 2021, a indústria chegou a sair do buraco de 2020, mas a recuperação, como um voo de galinha, parece ter chegado ao fim. Segundo o IBGE, em novembro a produção industrial somou seis meses consecutivos de queda, acumulando perda de 4%. No trimestre, a queda da média móvel foi de 0,5%. Todos os setores declinaram: bens de capital (-0,9%), bens de consumo semi e não duráveis (-0,5%), duráveis (-0,6%) e intermediários (-0,4%). Os penúltimos estão em queda há quase um ano e os últimos, há nove meses.

Não adianta culpar só o vírus. Houve fatores externos, como o desarranjo das cadeias produtivas e seus impactos sobre o suprimento e o custo dos insumos. Houve também fatores internos, além da crise hídrica, como desemprego, depreciação da moeda, corrosão da renda, inflação e alta dos juros. 

A pandemia atingiu em cheio deficiências antigas da indústria. Por décadas, no pós-guerra, a indústria foi o motor do desenvolvimento nacional. Mas, enquanto o agronegócio continuou a se modernizar e ganhar poder de competição, a indústria declinou.

A fragilidade causada por anomalias como o protecionismo e a baixa integração global, a insegurança jurídica, o pouco estímulo à inovação e à produtividade, o escasso e caro financiamento privado, a tributação disfuncional e onerosa, a burocracia, a baixa capacitação da mão de obra, ou a infraestrutura e a logística precárias, foi agravada pela incompetência dos governos de Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro.

Entre 2011 e 2020, em seis anos o desempenho do setor foi negativo e nos restantes, medíocre. Desde 2014, o País saiu do grupo dos 10 maiores produtores industriais, caindo para a 14.ª posição. A participação no comércio internacional vem encolhendo e na pandemia, segundo a OMC, se contraiu mais do que a média. Hoje, o País patina por volta da 35.ª posição no ranking mundial.

Segundo a Secretaria de Comércio Exterior, entre 2010 e 2021 a parcela da indústria nas exportações encolheu de 63% para 51,3%. Em praticamente todos os Estados as exportações são lideradas pelas commodities.

Entre os conhecidos efeitos da dependência excessiva a commodities estão crescimento mais lento, estrutura econômica não diversificada, volatilidade de renda e alta exposição a choques globais. Instabilidade macroeconômica e política e atraso no desenvolvimento social podem ser outras consequências.

Ainda assim, a indústria nacional mantém seu potencial. Com amplo mercado interno, o Brasil ainda tem uma das maiores capacidades instaladas do mundo e, em comparação com outros países em desenvolvimento, uma economia diversificada e razoável desenvolvimento tecnológico. Mas, sem um nítido revigoramento da produção industrial, a deterioração dessas vantagens estruturais rumo a um ponto de não retorno poderá dar sinais mais claros.

A recuperação é possível e viável, mas não será rápida. Para alcançá-la, contudo, será preciso um governo que combata os dois principais responsáveis pela degradação aguda da última década: o lulopetismo e o bolsonarismo.

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