As greves de 2019

O número de greves caiu 23% em 2019 e não é certo que a tendência se mantenha em 2020

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 03h00

Promovido pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o balanço das greves deflagradas tanto no serviço público como na iniciativa privada em 2019 revela que elas caíram 23% em relação ao ano anterior. Também mostra que, depois de um crescimento constante entre 2009 e 2016, o número de paralisações diminuiu significativamente nos últimos três anos.

Foram 1.118 greves em 2019, ante 1.461 em 2018. Segundo o Dieese, essa queda ocorreu basicamente no primeiro semestre do ano passado, quando foram registradas 577 paralisias, contra 901 deflagradas no primeiro semestre de 2018. Foi o período com menos greves desde o primeiro semestre de 2012, quando 488 categorias cruzaram os braços para reivindicar melhoria das condições de trabalho, além de aumento salarial. Os números do Dieese também apontam uma importante inversão: em 2019, foram realizadas 566 greves no setor público, várias contra as reformas previdenciária e administrativa, ante 792 paralisações no ano anterior – uma queda de 29%. Já na iniciativa privada foram 548 greves em 2019 – uma redução de 17% em relação a 2018.

Uma parte dessas greves foi deflagrada por rodoviários do transporte coletivo urbano e técnicos e auxiliares de enfermagem. Outra foi protagonizada por trabalhadores terceirizados dos setores de limpeza, varrição, coleta de lixo e serviços gerais. As greves dessas categorias ocorreram, basicamente, por motivos de atraso do pagamento e descumprimento da legislação, como o depósito do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço.

Vários foram os fatores responsáveis por essas mudanças. Um deles foi o agravamento da situação do emprego em 2019. Evidentemente, num cenário em que há 28,5 milhões de pessoas subutilizadas e a informalidade cresce assustadoramente, os empregados com carteira assinada pensam duas vezes antes de fazer greve. Para eles, a prioridade é manter o emprego e o salário, mesmo que este não seja reajustado. Outro fator foi a queda da inflação, o que levou várias corporações a se conscientizar de que os ganhos que se podiam obter por meio da paralisia do trabalho não compensavam os custos político, financeiro e jurídico de uma greve. O terceiro fator foi o fato de que as ameaças de greve e as paralisias efetivamente ocorridas no setor público se concentraram na categoria dos professores municipais de municípios pequenos, que contam com sindicatos fracos, que precisam de repasses financeiros de federações e centrais sindicais.

Como essas entidades tiveram de ajustar seus orçamentos para se adaptar à reforma trabalhista de 2017, que suprimiu parte de suas principais fontes de financiamento, o volume de recursos que repassavam para os pequenos sindicatos foi reduzido drasticamente. Além disso, segundo os especialistas, pesou na mobilização política do funcionalismo público a crise financeira da União, dos Estados e dos municípios, muitos dos quais enfrentaram enormes dificuldades para depositar os salários em dia.

Por isso, dois terços das greves deflagradas em 2019 foram de natureza defensiva, afirma João Guilherme Vargas Neto, consultor sindical e membro do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Ou seja, não foram paralisias por aumentos salariais, mas, sim, contra o descumprimento de direitos – como atraso no pagamento de vencimentos, férias, 13.° salário – e manutenção das condições vigentes de trabalho.

Segundo os técnicos do Dieese, é difícil saber se a sequência de quedas no número de paralisações será mantida em 2020. Em menos de dois meses, já foram contabilizadas 74 greves – cinco a mais do que no mesmo período em 2018. No setor público, muitas dessas greves são políticas, como a dos funcionários da Petrobrás. No setor privado, as estimativas são de que os trabalhadores empregados estarão mais preocupados em manter emprego e salário do que em cruzar os braços.

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